Yasmine Hamdan: ” a minha mensagem não se esgota na música”

Ursula Kroeber Le Guin, escritora norte-americana, dizia que “Você não pode comprar a Revolução. Você não pode fazer a Revolução. Você só pode ser a Revolução. Ou ela está no seu espírito ou não está em lugar nenhum.” A frase poderia bem resumir a vida e coragem de Yasmine Hamdan, cantora libanesa que resolveu fazer a sua própria revolução num meio hostil para artistas e ainda mais castrador para mulheres. Inconformada com os grilhões culturais do médio oriente, Yasmine formou em 1997 os Soapkills, a primeira banda underground de música electrónica. A ousadia contagiou a juventude muçulmana que mais tarde viria a revoltar-se contra o sistema dando início à Primavera Árabe, movimento libertador que alastrou a diversos países do médio oriente.

A “nómada” Yasmine vive entre Paris, Grécia, Abu Dhabi e Beirute, fala fluentemente 6 linguas e é uma consumidora compulsiva da cultura dos locais por onde passa. Braga será o próximo. Ligamos para Sarajevo, onde a artista descansava antes da rentrée:

 

Olá Yasmine. Sendo uma viajante e exploradora que absorve influências dos locais onde passaste, o que resta ainda da cultura árabe na tua música?

Não acredito em limites geográficos na música. Tudo depende da vida e história de cada um. Não estou interessada em definir a minha música. Eu tenho influências árabes, mas também as tenho do ocidente. Através da arte e da ciência o ser humano teve oportunidade de progredir, sobretudo porque essa informação circula através das fronteiras e foi isso que possibilitou a evolução tecnológica que experimentamos hoje. Por isso é que a arte e a ciência são tão importantes.

yasmine 02Tens portanto uma visão de um mundo aberto, sem fronteiras…

Não propriamente. O que acontece é que eu sigo o meu coração, as minhas emoções. Pode haver algo que me desperte a curiosidade, que me fascine ou inspire e o despoletar de uma ideia pode acontecer em qualquer lado. Eu venho duma região que há 80 anos atrás não era uma nação e que tem sofrido transformações profundas, não só fronteiriças, mas também de carácter. No caso da música árabe mais tradicional essa música não era escrita até à década 1930, mas transmitida oralmente. Sim, sou uma artista árabe, mas posso ou não expressar-me em árabe.

Mas como se desenvolve o processo de criar uma canção?

As canções podem vir de uma emoção ou de um momento, é algo que não controlo. Eu gosto de quando esse desejo de criar e gravar um tema surge acidentalmente. Gosto de gravar demos em bruto e montá-las como de puzzles se tratassem. Há coisas que precisam de estar alinhadas e por isso por vezes volto aos temas, modificando-os quando vejo que já não funcionam. Normalmente demoro muito tempo a desenvolver uma ideia, por vezes altero partes, acrescento instrumentos, até conseguir esse alinhamento, muitas vezes motivado por um estado de espírito.

Resulta melhor se estiveres emocionalmente mais em baixo?…

Não necessariamente. O que interessa é a dinâmica. Não gosto de estar constantemente satisfeita comigo própria. Quando faço um tema, gosto de ouvi-lo. Eu viajo muito e o que me dá prazer é estar num contexto diferente e sentir a diferença que esse ambiente provoca no próprio tema e no modo como o sinto. Tenho necessidade de partir e voltar aos temas, tenho ideias e desafios na minha mente que preciso perceber se funcionam, mas esse é um processo que demora o seu tempo.

yasmine 03Estiveste em Portugal duas vezes. Que memórias guardas dessas visitas?

Fantásticas. A primeira foi no festival de cinema no Estoril. O Paulo Branco é meu amigo e conheci pessoas incríveis no festival. Tive contacto com muita gente, dei muitas entrevistas e, apesar de não sermos todos iguais e não termos as mesmas “guerras”, encontrei alguns pontos comuns com Portugal… não propriamente a melancolia, mas uma certa interrogação existencial sobre as coisas.

É o nosso fado…

Eu não conheço muito bem o fado…conheço essa mulher incrível, penso que é a mais famosa, Amália Rodrigues, que para mim não era só uma cantora, há algo na sua voz e nas suas canções que apela à memória e é fascinante.

Nos dias de hoje há toda uma nova geração a cantá-lo das mais variadas formas, o fado fará sempre parte da nossa cultura…

Eu tive o meu período de Fernando Pessoa e acredito que há algo muito interessante na vossa cultura. Vou frequentemente a Portugal nas férias e adoro o país. Embora esteja mais habituada ao mediterrânico do que ao oceano…o oceano é algo que me acalma e inspira, pois tanto é sereno como selvagem. Também gosto muito de marisco, da comida, simples, mas fantástica. Em relação aos espectáculos, o público do Primavera Sound no Porto proporcionou-me um dos mais bonitos e carinhosos momentos em palco.

Tens preferência por concertos ao ar livre?

Eu gosto é que o som esteja com condições (risos) Se estiveres confortável e sem problemas técnicos, acaba por ser indiferente e aproveitas sempre da melhor maneira esse momento.

RZ6A2579.JPGSobre ti alguém escreveu esta frase “ Yasmine tornou-se um ícon sexy e rebelde com um enorme culto entre a juventude muçulmana que provavelmente preparou a mente de muitos deles para a Primavera Árabe”. Como lidas com esta responsabilidade?

(risos) Não tenho a certeza de te poder dizer o que é a Primavera árabe..o termo poderá ser demasiado simplista em relação à realidade. Eu cresci e sofri com o conservadorismo e a falta de meios. Quando fazes música na Europa, existe uma cultura musical, os jovens consomem essa cultura, tens uma voz e um espaço e existe uma indústria que suporta tudo isso e te permite evoluir. Eu sou uma afortunada por ter vivido num ambiente hostil onde nada existia, nem meios técnicos, nem público nem hábitos de consumo musical…foram concertos verdadeiramente underground, com ambientes surreais, com públicos surreais… tudo isso foi excitante e é uma das razões para eu continuar a fazer música. Tive que ultrapassar muitas barreiras, muitos “checkpoints”, às vezes com teimosia, outras com paciência mas sinto-me afortunada por ter conseguido ter feito essa escolha e prosseguir com ela, mesmo com todas as dificuldades.

Soube, desde tenra idade, que sendo mulher haveria muitas limitações e isso pode aborrecer-te de morte. Seja sexual ou intelectualmente sempre me senti mais livre do que as pessoas que me rodeavam. Apesar de me ter integrado, tive o privilégio de poder viajar e comparar, o que me fez perceber o que era melhor para mim. Foi preciso carácter e agressividade para fazer a minha própria revolução. Fi-la através da música, foi ela que me fez perceber quem era e o que queria fazer. Ela resolveu a minha crise de identidade com o mundo árabe e definiu o caminho que hoje sigo.

Foi então um privilégio ter passado por essas privações…

Sim. É algo único. A guerra é uma realidade com que cresci. E a guerra gera emoções paradoxais. Uma delas é a esperança. Seja através da música ou da literatura, podemos sempre encontrar esperança e isso é precioso. Vivi essa época intensa e vivi em diferentes  locais, no Líbano, na Grécia, em Paris…tudo isso moldou a minha visão e entendimento sobre o ser humano e isso faz-me perceber melhor quem sou.

yasmine 05Qual o papel do cinema na tua música?

Para mim música e cinema estão na mesma esfera. Eu vivo com um realizador (Elia Suleiman) mas nem sempre tive acesso a cinema. Quando vivi no Kuwait, por exemplo, não havia cinema. Tal como na música, também no cinema tive amigos que me iniciaram nessa arte. É algo que me inspira, tal como a literatura. É curioso que com Soapkills houve uma grande utilização cinematográfica dos nossos temas e praticamente não temos imagens desse período. Não tínhamos acesso a cameras, grande parte da cidade estava destruída por causa da guerra e por isso quase não há registos visuais desse período. Nessa fase eu era completamente selvagem e não tinha grandes preocupações com a imagem pois sempre acreditei que teria de ser a música a dar-nos a conhecer. Não gostava de dar entrevistas, pois considerava que era narcisismo. Estava a fazer a minha revolução e a tentar sobreviver. Com o tempo vi a mudança (em mim e na relação entre a imagem a música) e acabei por vir a gostar de fazer entrevistas e perceber que tenho algo a dizer. A mensagem não se esgota na música.

 

A figura expressiva e sensual de Yasmine poderá até enfurecer os conservadores islâmicos, mas a libanesa não renega as suas origens e mostra, com o poder desarmante do seu talento e atitude que a música ainda é umas das mais subtis e eficazes armas para se fazer uma revolução.

 


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