Rodrigo Amarante: ” Visto daqui, tudo parece fazer sentido”

Saudade, eu te matei de fome
E tarde, eu te enterrei com a mágoa
Se hoje eu já não sei teu nome
Teu rosto nunca me deu trégua

Milagre seria não ver
No amor, essa flor perene
Que brota na lua negra
Que seca, mas nunca morre

Verdade, eu te cerquei de longe
E tarde, eu encostei no medo
Se ontem eu cantei teu nome
O eco já não morre cedo

Milagre seria não ter
O amor, essa rima breve
Que o brilho da lua cheia
Acorda de um sono leve

– Irene, Rodrigo Amarante

 

rodrigo amarante 2Se Rodrigo Amarante fosse um livro na contra-capa ler-se-ia provavelmente a classificação atribuída pela revista Rolling Stone: “um dos 100 artistas mais importantes da história da música brasileira” ou  “o autor do tema de abertura da série televisiva “Narcos” ” acompanhada de citações de outras publicações semelhantes, adornadas com adjectivos como “mágico“, “genial“, ou “talento puro“. Mas, tal como um livro, a obra do artista merece ser desfolhada e saboreada a cada tema. É intrigante esta serenidade que traz no rosto, este conforto com que embala as palavras. Enquanto nos adoça os sentidos, Rodrigo Amarante convida a uma viagem interior feita de perguntas que nem sempre interessa responder. Mais do que na solidez de certezas, Rodrigo navega nas interrogações que oscilam entre a razão e a emoção, um caminho sereno e confiante que aceita a mudança como processo de evolução natural. Saiu do Brasil para Los Angeles, de onde trocou algumas palavras connosco antes da tão esperada viagem ao Theatro Circo, em Braga.

Esta mudança fez com que encontrasses um novo Rodrigo que ainda não conhecias?

A busca é o que te faz encontrar. Se a procura é o que eu faço, poderia ter encontrado infinitas outras possibilidades. Qualquer pessoa reconhece numa mudança, ainda que temporária, uma espécie de magia no olhar porque livrámo-nos dos símbolos de que escolhemos nos rodear para “armar” a nossa identidade. Quando alguém se muda, “desmonta-se” e isso é algo muito valioso, sobretudo para quem escreve.


É sempre um processo de descoberta interior… assim como o processo de composição e a evolução natural que teve como artista… tudo isso te ajuda a descobrir-te, não?

Bom, tudo ajuda no processo de auto-descoberta. O papel da arte e do apreciador da arte é o mesmo: ganhar uma nova perspectiva. Isso é o mais importante que há. É aí que reside a força política e emocional da arte. Todo o artista quando escreve busca uma nova perspectiva, sobre si, sobre o outro, sobre o mundo.

Rodrigo_AmaranteO que diria o Rodrigo Amarante em início de carreira ao Rodrigo Amarante da actualidade?

Boa pergunta… Tudo foi muito surpreendente e sem planeamento. Nunca conseguiria imaginar que nesta altura estaria viajando, escrevendo em línguas diferentes e sendo ouvido pelo mundo fora. Voltei há pouco da Turquia, onde fui muito bem recebido. Isso era inimaginável, assim como viver nos Estados Unidos, como acontece agora. Se me dissessem isto há 15 anos atrás, nunca acreditaria! Por outro lado, eu cresci aprendendo a me desprender, a continuar, a buscar novos horizontes, a não me acomodar. Isto com o meu pai viajando…a cada três anos a gente se mudava. Apesar de não conseguir imaginar no passado este presente, visto daqui, tudo parece fazer sentido.

As viagens e mudanças produziram certamente transformações pessoais, mas há cordões umbilicais que nunca se cortam. As tuas raízes viajam sempre consigo?

Eu não faço esforço para ser quem sou, entendeu? Não capricho no quão típico eu sou, seja carioca ou brasileiro. Não tenho que me esforçar nesse sentido.

Falando de “Cavalo”, uma obra imponente na grandeza que alcançou e também veloz no modo como chegou ao público, de modo tão fácil e natural. De onde nasceu esta identificação com este animal?

O disco chama-se “Cavalo” pela riqueza simbólica do animal em relação à escrita. O cavalo tem uma dualidade interessante (cavalo branco/ cavalo negro): Tem um lado solar, masculino, ideal, esteticamente perfeito e mais ligado à razão mas tem também um lado lunar, mais associado à emoção, ao instinto, à falta de controlo, mistério e sonho. O meu disco é uma espécie de exercício de definição e destruição da identidade, que é algo inevitável em mim. Há aqui uma separação entre quem eu sou, quem eu penso que sou e aquilo que carrega o meu nome.

Noutra instância, ao sair do meu país eu crio a possibilidade de mim que ficou, que eu posso ver à distância. Somado a isto há a duplicidade de quem escreve. Para mim a escrita é um exercício de simbiose entre quem escreve e os que observam quem escreve. O objectivo seria uma escrita mais fluida e unificada, menos racional. O cavalo, sendo veículo, carrega esse ideal de simbiose entre cavalo e cavaleiro. Quando a cavalgada é perfeita há essa simbiose entre os dois.


“ O papel da arte e do apreciador da arte é o mesmo: ganhar uma nova perspectiva. Isso é o mais importante que há. É aí que reside a força política e emocional da arte”


Como acontece o processo de composição? É preciso algum “alinhamento planetário” ou condições especiais para que funcione à primeira?

Não sou astrólogo nem astrónomo. Se há esse alinhamento não tenho como tomar conhecimento dele. O que eu faço é sentar na cadeira com uma folha em branco, piano ou violão. A hora é a que eu tiver disponível. Gosto de escrever à noite mas não preciso dela para escrever. Dou muito valor às palavras. É muito divertido encontrar as palavras perfeitas para determinada melodia, por isso fico ali até achar que “aconteceu”.

Já estiveste várias vezes em Portugal mas Braga é uma estreia…

Já tentei mais do que uma vez ir a Braga. Sei que há uma tradição de guitarras portuguesas feitas em Braga, sempre ouvi falar nisso e sempre quis trazer uma comigo mas nunca consegui. Pode ser que seja desta vez…

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