Raquel Nair: “O GNRation é um pólo aglutinador de novas dinâmicas culturais e criativas”

Regressar ao lugar que nos faz feliz. Procurar o lugar que nos conta histórias. Nossas, e dos que por lá passam. Todos os dias. O Gnration é um desses lugares, pelo menos para alguém que sente que o mais importante de tudo é sentir verdade no que está a viver, no seu trabalho e na sua meta. E isso é até às últimas consequências. Porque a sua verdade, meta e acreditar é o que realmente importa. Para ela. Para todos em que acredita e a ajudam diariamente. Raquel Nair é o nome por detrás do Gnration. Por detrás desta entrevista. O seu trabalho e todas as suas variáveis.  Mais soma que subtracção. Uma equação que começa a mostrar-se perfeita e multiplicável. Mil e alguns dias fazem já parte desta viagem. A equipa cada vez mais forte. Mais blindada. Os bracarenses, esses, vêm-nos mais permeáveis.  Raquel regressa todos os dias a um lugar que a faz feliz. Sem qualquer outra intenção ou outra vontade que não a de ser feliz a fazer o que sabe, e para quem sabe.
 Gostamos da ideia desta entrega. Braga e as suas gentes merecem. Voltem lá. Sempre que puderem. Com alguma sorte encontram a equipa toda junta. Como sempre. Gostamos de pensar que quem lá passa fica a sonhar com o regresso…
GNRation
Depois destes 1 095 dias qual é o sentimento que impera?

Acima de tudo impera a certeza de estarmos no rumo certo, sempre com a clara noção de que o caminho percorrido é demasiado curto para efectuar balanços e de que o melhor ainda está certamente para vir no futuro próximo. É esse desafio constante que nos motiva a sermos cada dia melhores, mais competentes, inovadores, dinâmicos e criativos. Esse é, aliás, o espírito do GNRation, o de se renovar constantemente, surpreendendo o público e a comunidade com novas propostas, mantendo o critério de qualidade a que temos habituado os nossos visitantes. É preciso lembrar que durante estes três anos o GNRation teve altos e baixos e viveu um período de renovação da linha estratégica com a chegada da nova equipa de gestão da Fundação Bracara Augusta, em Março de 2014. Houve praticamente um recomeço, efectuamos uma redefinição profunda de objectivos, o que evidentemente leva o seu tempo a ter efeitos e a ser entendido pela Cidade. Ainda assim, em 2015 conseguimos atingir mais de 34 mil visitantes, duplicando o número alcançado no ano transacto. Hoje somos reconhecidos de forma praticamente unânime como uma referência cultural de Braga, da região e de todo o país, inclusivamente com repercussão nos mais reputados órgãos de comunicação cultural a nível internacional. Penso que estes dados dizem muito sobre a enorme margem de evolução do projecto nos próximos anos.

Num tempo em que tudo é tão fugaz, tão esquecível, sentes que a vossa marca irá perdurar?

Assumimos claramente como desígnio fazer do GNRation um pólo aglutinador de novas dinâmicas culturais e criativas, tornando Braga mais cosmopolita e aberta a diferentes tendências e práticas. Isso implica obrigatoriamente a sensibilização e formação de novos públicos na Cidade e um abrir de portas a artistas emergentes, com propostas e conteúdos que podem fugir ao que habitualmente as pessoas esperam ou encontram. Nesse sentido, penso que a nossa programação cultural vem marcar a diferença e preencher uma lacuna que existia em Braga, fazendo incidir a luz dos holofotes sobre outro tipo de manifestações culturais que estavam escondidas na sombra. Pretendemos que as pessoas vejam no gnration um espaço que, com recurso à actividade cultural, todos os dias quebra barreiras, vence preconceitos e derruba os muros que limitam o pensamento e a imaginação. Dai decorre as actividades de serviço educativo que desenvolvemos com Escolas e instituições. Assim se abre uma Cidade ao mundo, através do expandir das mentalidades. É essa a marca conceptual que pretendemos fazer perdurar, porque por muito fugaz que tudo seja, quem viaja até novos horizontes a que só a cultura os pode levar, sai de lá mais rico para a vida inteira. Trata-se de um caminho sem retorno na valorização pessoal e da comunidade no seu todo. Está ai o legado que queremos deixar para o futuro e que torna o nosso trabalho tão estimulante.

gnration Open Day2

Neste dia em que se completam 3 anos do vosso caminho aqui no GNRation, achas que conseguiste construir uma ponte entre várias gerações?

Construímos uma ponte no sentido em que a influência e a importância da cultura é algo de transversal a todas as faixas etárias, funcionando como um factor de união entre as pessoas. Ao longo deste tempo constatamos que a nossa programação tem propostas que, embora sejam mais direccionadas para determinado público-alvo, agradam a diferentes públicos e de idades diversas. Apesar de o GNRation ser evidentemente conotado com a juventude, até pela maior predisposição dos jovens em absorverem um leque mais abrangente de manifestações culturais, é extremamente comum termos visitantes de meia-idade ou idosos na plateia e até a participar em espectáculos de comunidade que realizamos com grupos etnográficos da cidade. Esse é um indicador de que por vezes a idade é só mesmo um número e de que, com os estímulos culturais certos, o chamado ´gap geracional´ é outro preconceito que não tem assim tanta razão de ser.

É notório que fazem uma programação de nicho, para um público-alvo muito específico. Alguma vez sentiste dissabores por terem traçado este caminho?

Não encaramos a nossa programação como sendo para um nicho ou para um público-alvo muito específico. Esse é um mito que nos esforçamos para combater. O que é notório, isso sim, é que as nossas propostas culturais fogem do denominado ´mainstream´ e procuram colocar o público em contacto com novos conceitos artísticos a que dificilmente teriam acesso de outra forma, principalmente fora dos centros urbanos de Lisboa e Porto. Sempre, repito, tendo a qualidade como factor essencial. E longe de ser um nicho, são muitas e cada vez mais as pessoas que procuram avidamente as nossas actividades e que se revêm na tipologia de espectáculos que proporcionamos.  Pelo GNRation já passaram nome como Panda Bear, Lee Ranaldo ou Bonnie ‘Prince’ Billy. São artistas que enchem salas em todos os cantos do mundo. Assim sendo, o caminho traçado nunca nos trouxe nenhum dissabor, bem pelo contrário. Claro que já aconteceu, sobretudo numa fase inicial do nosso trabalho, não termos a adesão esperada num ou noutro espectáculo e isso leva-nos a reflectir sobre os motivos para tal ter sucedido, que podem ser imensos. É algo que encaramos como perfeitamente natural no percurso. Mas o que temos verificado é precisamente a tendência contrária: com o reconhecimento crescente que temos granjeado na comunidade, o público tem vindo a aumentar e a apreciar, ou a aprender a apreciar, a nossa programação. Se quisermos pôr as coisas de outro modo, conforme vai aumentando o entendimento do público sobre os nossos espectáculos e o conhecimento sobre novas vertentes artísticas, menos ´arriscada´ se torna a programação.

raquel nair gnration 2

Braga demonstra diariamente através do GNRation que tem capacidade de atrair talento e público, mantendo um equilíbrio orçamental. O que implica em termos de gestão conseguir esta harmonia?

No GNRation fazemos uma gestão extremamente rigorosa e controlada do orçamento que temos disponível. Mesmo nas mais pequenas acções do dia-a-dia temos a constante preocupação em reduzir custos onde tal é possível. A equipa tem noção dos constrangimentos e está sensibilizada para a necessidade de fazer mais com menos e todos têm sido inexcedíveis nos esforços para mantermos o equilíbrio orçamental. Não é uma tarefa nada fácil e, em várias situações, exige de nós enorme criatividade e até capacidade de improviso. Neste momento temos uma situação financeira perfeitamente estável e conseguimos reverter resultados que, em Março de 2014, quando iniciamos o nosso trabalho, nos colocavam num contexto bem mais delicado e desequilibrado. Gradualmente temos vindo a efectuar melhorias no edifício, criando melhores condições quer para quem nos visita, quer para quem utiliza o espaço todos os dias.

O GNRation sempre se intitulou como uma plataforma complementar aos outros espaços culturais que existem na cidade. Que mais valia trouxeram as articulações criadas entre os mesmos?

Defendemos que os espaços culturais da Cidade devem funcionar de forma articulada e complementar, criando parcerias e sinergias que possam melhor servir a comunidade. O Theatro Circo e o GNRation são, neste momento, os espaços de maior dimensão e relevância que existem em Braga. Como tal, não faz qualquer sentido criar lógicas concorrenciais. É praticamente obrigatório que haja diálogo, um conjugar de esforços no sentido de oferecer uma programação diversificada e que, em certas alturas em que faça sentido, se possa cruzar. Isso aconteceu com o Festival Semibreve e Festival para Gente Sentada, com espectáculos destes eventos a realizarem-se nos dois espaços. Foram experiências muito bem recebidas pelo público e que pretendemos repetir. Todos ganham quando se trabalha em conjunto e este caso não é excepção.

gnration Open Day

Este ano de 2016 trará certamente surpresas a toda a cidade. O que podemos esperar de novo da equipa e família GNRation?

Como principais novidades em 2016 temos o Open Day, em que abrimos as portas do edifício à Cidade para que todas possam ver o que se faz nesta casa. É um dia de celebração do 3º aniversário em que queremos incidir na construção de uma ligação emocional entre as pessoas e o GNRation. A sociedade deve sentir o espaço como seu, como um património inalienável, com tudo o que isso traz de positivo. Sabemos que essa ligação emocional e afectiva se cria com o tempo e com as memórias que se vão construindo, mas é algo que consideramos fundamental e que queremos potenciar e ´acelerar´ com este tipo de actividades. Depois temos o Skills Lab, um projecto diferenciador que visa ajudar licenciados a entrar no mercado de trabalho e que tem o apoio da Bosch Portugal. Temos ainda uma parceria com o Laboratório Ibérico de Nanotecnologia que inicia no segundo semestre deste ano e que vai cruzar as artes com a ciência e conhecimento que se produz no INL.

Qual a maior dificuldade sentida na gestão deste espaço?

A maior dificuldade passa por gerir um orçamento reduzido e ter a obrigação de, ao mesmo tempo, manter os padrões de qualidade a que habituamos o público e os próprios artistas. Sabemos que para termos sucesso na nossa missão é preciso constantemente evoluir e criar novas dinâmicas e conceitos. Fazemo-lo potenciando ao máximo os recursos disponíveis. Costumo dizer que todos os dias temos de fazer milagres para que o GNRation continue com este dinamismo e vivacidade. E conforme o tempo passa a responsabilidade vai também aumentando, já que a nossa actividade está em claro crescimento. Mais uma vez realço que só é possível atingir estes resultados porque temos uma equipa muito unida e solidária, com grande capacidade de entreajuda.

raquel nair gnration

A nível pessoal, o que sentiu a Raquel ao comando deste que é um dos espaços mais emblemáticos da cidade?

É uma honra e certamente o maior desafio, até ao momento, da minha carreira profissional. Criamos um projecto praticamente de raiz e vê-lo crescer, ter sucesso e ser reconhecido pela comunidade, extravasando as fronteiras da região e do país, é extremamente gratificante. A minha formação académica é na área da gestão e ao longo do meu percurso profissional exerci funções numa instituição de ensino superior e em empresas ligadas à construção e ao têxtil. A vertente cultural, pelas suas especificidades, é uma experiência única. Necessitei do meu período de adaptação e posso dizer que nestes dois anos beneficiei de um imenso enriquecimento pessoal. Mas não quero ficar por aqui, tenho vontade de aprender mais e todos os dias sinto que o consigo fazer. Os resultados positivos servem como elemento motivador. Mas esta experiência, como qualquer outra, só se torna marcante pelas pessoas que me acompanham diariamente. Como já mencionei ao longo da entrevista, a equipa do GNRation é uma verdadeira família, que se estende aos muitos colaboradores do Município que nos ajudam quase diariamente e às forças vivas locais que se têm associado aos nossos projectos e ideias. São estas relações humanas que tenho construído e o sentimento de que estamos a construir algo de inovador e valioso na comunidade que valorizam a minha experiência.

Consulte o programa para o GNRation Open Day 

 

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