Pedro Chagas Freitas: “Os homens estão a abandonar a ideia de que não podem sentir e demonstrar os seus sentimentos”

Foi seguramente um dos momentos altos da Feira do Livro 2016. O escritor que pulveriza recordes de vendas e soma popularidade dentro e fora da internet não passou despercebido na noite de Sábado. Tinha prometido falhar e agora perder, mas na visita a Braga a longa fila para autógrafos à porta do fórum denunciava uma vitória esmagadora não só visível nos números de vendas e popularidade, mas sobretudo na desarmante tranquilidade de quem fez o seu caminho com honestidade, talento e humildade.  Pedro, o tal “gajo que escreve umas cenas” e “vive na lamecholândia” coleciona mais de 800.000 likes no facebook mas não ficar por aqui. Os homens que o digam.

pedro chagas freitas 01

Como tem sido o feedback do público ao “Prometo Perder? 

Fantástico! O livro está no primeiro lugar, a reacção do público é excelente, acredito que esteja muito perto da que tivemos no “Prometo Falhar” e no fundo com a nossa expectativa pois acreditávamos que esta é a abordagem com que as pessoas se identificam e com a qual eu também me identifico. Em estou “em casa” e espero que as pessoas também se sintam em casa ao ler este livro.

Há alguma passagem a que o público faça maior referência?

Não, cada pessoa faz a sua interpretação do livro e o lê de maneira diferente mas há uma coisa que em relação a esta obra estou a sentir: São cada vez mais os homens a ler o livro. Havia muito a ideia que só as mulheres é que liam…

O target mudou?

Não propriamente. Acho é que os homens estão a abandonar aquela ideia de que não podem sentir e demonstrar esses sentimentos. Mesmo no facebook agora tenho mais comentários de homens do que de mulheres, o que há um ano ou mais seria impensável. Será talvez a grande novidade deste livro.

pedro chagas freitas 02Foi um tabu que derrubaste?

Sim, talvez, mas julgo que aos poucos isto vai… Se pudesse definir alguma diferença marcante desta obra em relação a anteriores é a presença cada vez mais notória de mais homens assumidamente a gostar, sentir e comentar a obra.

Casaste recentemente. Como escritor, há um Pedro Chagas Freitas antes e depois do casamento?  Essa mudança pessoal reflete-se na tua escrita?

Nada. Foi mesmo só uma assinatura, duas aliás. No livro “Queres casar comigo todos os dias?” nesse sim, eu abordo mais a questão do casal mas no meu caso nada mudou, nem era esse o objectivo. São apenas duas assinaturas. Na escrita também não houve mudanças, tenho a felicidade de escrever o que me apetece, tenho essa liberdade, e é o que me interessa.

Costumas ler as tuas obras ou textos mais antigos? como os vês a esta distância?

De vez em quando há pessoas que partilham textos meus mais antigos. Nem sempre os reconheço. Não que me seja estranho mas sim, era uma pessoa diferente. Se formos ler livros que lemos há 10 anos vamos retirar deles ensinamentos diferentes, se lermos o que escrevermos há 10 anos (ou até há um mês) podemos não nos rever nesse texto. Eu tenho essa dicotomia: tanto acho que foi uma estupidez ter escrito algo como julgo que nunca mais vou escrever nada tão bom.

Não és daqueles que defende que se escreve melhor quando se está pior?

Não. Isso é uma ideia feita. O que acredito e defendo até à demência é que, quando essa necessidade surge, é preciso escrever, nem que seja meia dúzia de linhas numa crónica ou versos num poema. Para mim um dia sem escrever é um dia vazio, esteja feliz ou triste.  Tenho essa necessidade. Costumo dizer às pessoas”quando estiverem felizes, escrevam! quando tiverem vontade de dançar, escrevam!”. Pode ser que surja algo surpreendente!


“ tanto acho que foi uma estupidez ter escrito algo como julgo que nunca mais vou escrever nada tão bom”


És uma pessoa que se envolve entusiasticamente no processo de promoção dos teus livros. Achas que isso ajudou a desmistificar a imagem do escritor “bicho do mato”, fechado no casulo do seu escritório?

Para mim isso nunca fez sentido. Evidentemente que, com as redes sociais, é muito mais fácil estar perto dos leitores. Sim, o online tem uma força tremenda mas o que eu faço não é nada de extraordinário. Também os cineastas promovem os filmes com trailers, também os músicos lançam singles que passam na rádio para promover o álbum…o que eu faço não é mais do que “mostrar singles” dos meus livros para o leitor perceber se quer ou não ler o livro. Obviamente faço-o com as ferramentas que existem hoje…

Se Proust tivesse facebook…

Ou Fernando Pessoa! Que teria certamente vários perfis! O que tem de interessante as redes sociais é que mais do que uma ferramenta de divulgação, é também um laboratório. Antigamente escrevíamos um livro e tínhamos que esperar meses ou anos pelo feedback. Aqui é imediato. Coloco um texto e logo a seguir há alguém a dizer que adora ou odeia. Essa velocidade é interessante em termos de trabalho pois permite-nos jogar com o processo de escrita…

E há algum ajuste em função desse feedback?

Da minha parte, não. Mas há desilusões e surpresas. Ainda recentemente durante uma apresentação me elogiaram um texto que eu estive para apagar. É muito difícil eu perceber isso… Evidentemente, antes de tudo o mais escrevo para o meu umbigo, escrevo coisas que quando leio, gosto. Mas o que quero é ter essa liberdade de escrever o que me apetece e depois sim, vejo como funciona e tento chegar ao maior número de leitores.

Sem repetir fórmulas de sucesso…

Isso não. Subestima-se muito o leitor. Temos casos de best-sellers que desapareceram por causa disso, por irem atrás da fórmula, há casos de outros livros com todos os ingredientes para serem best-sellers, mas falharam porque as pessoas acabam por perceber que estão perante algo artificial. Por isso faço questão que os meus livros sejam diferentes. Tenho leitores que me dizem que adoraram um livro meu, mas detestaram outro e isso não só é possível como me deixa feliz, pois é sinal que estou a fazer bem o meu trabalho.

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