Nos bastidores da Braga Romana

Já sei! vou fazer uma oferenda aos deuses para eles pararem a chuva!“, grita Dinis Binnema enquanto, de tesoura em riste, começa a cortar pequenas mechas de cabelo a todos os presentes para as lançar ao vento. A menos de 3 horas do espectáculo “Sacrifício aos Deuses”, o membro dos “Três Irmãos” não sabe ainda se vai ser possível subir ao palco  com os seus companheiros nesta edição da Braga Romana.braga romana-bastidores 1Apesar de toda a preparação e experiência acumuladas em espectáculos em todo o país, o clima continua a ser das poucas variáveis que não é possível controlar. A chuva intermitente faz crescer a ansiedade nas horas que antecedem o espectáculo: “é frustrante porque há toda uma concentração e energia que se vai acumulando até entrarmos em cena e, por causa da chuva, temos que esvaziar esse tensão sem fazer o que mais gostamos“, explica.

braga romana-bastidores 7No improvisado camarim a menos de 200 metros do palco há outros artistas que partilham o espaço. Roupas, maquilhagem, adereços, pirotecnia e um sem número de ferramentas e objectos utilizados na preparação de cada performance preenchem a sala. Pela cidade há outros espaços semelhantes, onde os restantes artistas se preparam para os espectáculos.

braga romana-bastidores 6Pedro e Marisa (AnymaMundy) também estão apreensivos. A sua carruagem de madeira carregada de artifícios pirotécnicos tem que ser transportada e montada junto ao palco com uma hora de antecedência e se chover durante o trajecto compromete-se não só o espectáculo como a própria pirotecnia. Pedro explica que esta é adquirida em Espanha, “um país com uma oferta maior nesta área e preços mais competitivos“.  Em termos de segurança o artista não corre riscos e sempre que necessário contrata um técnico credenciado para manusear os materiais mais perigosos.

Ao fim de tantos anos na estrada, a dupla conhece bem o terreno que pisa e sabe antecipar contratempos: “o planeamento é fundamental e neste momento temos a agenda preenchida na maior parte do ano mas é preciso uma gestão rigorosa porque algumas feiras chegam a pagar com 6 meses de atraso, que é na altura em que recebem a receita do evento anterior“, explica.

Nas horas passadas nos bastidores o companheirismo ultrapassa qualquer sentimento competitivo e a entre-ajuda é uma constante que une os diversos artistas em prol de um bem comum.

braga romana-bastidores 2A chuva dá finalmente tréguas e no pátio exterior aos camarins Diogo e Dinis Binnema aproveitam para reparar e testar os pequenos carros de madeira utilizados num dos seus espectáculos mais recentes.  Da ideia original à produção dum espectáculo, a criatividade, dedicação e profissionalismo são ingredientes fundamentais, mas há quem goste de “cortar caminho”, como explica Claudia, falando sobre o colega Pedro, cujo trabalho foi plagiado: “O Pedro tinha um personagem corcunda que era uma referência em Sta Maria da Feira. Todos o conheciam e admiravam ano após ano mas nesta última edição surgiu alguém que, na mesma feira, resolveu vestir-se e comportar-se como ele, imitando cada detalhe.  Foi de imediato desmascarado pelos artistas presentes e não voltou a aparecer desde então”. Pedro lamenta o sucedido mas explica que “hoje em dia com as redes sociais é fácil ir buscar inspiração com o trabalho e as ideias dos outros“, tendo já assistido e denunciado situações semelhantes.

Ao cair da noite os Malatitsch ultimam os preparativos para o espectáculo de encerramento da Braga Romana.

braga romana-bastidores 3No exterior do camarim, Chandra enche os bidões com líquido inflamável, carrega tochas e tridentes que serão mais tarde inflamados num dos momentos mais aguardados pelo público. Todo o equipamento é conferido e carregado numa carroça de madeira nos cem metros que os separam do palco. Sem checklist e confiando apenas na memória, Chandra confessa que “sim, já aconteceu estarmos no palco e percebermos que nos falta algo… nessas alturas basta um olhar para o outro perceber que vai ser preciso improvisar! (risos)”. Nervosa, Carmen já está nos bastidores do palco para assistir o espectáculo da escola de dança Backstage que antecede o seu, conferir se alguém precisa de ajuda e descomprimir um pouco antes da meia-noite, hora marcada para o espectáculo, “há sempre nervos, sobretudo quando o espectáculo é novo“, confessa.
Atrás do biombo junto ao palco, cerca de 15 elementos de apoio técnico, luz e som acotovelam-se entre a desmontagem dum espectáculo e os preparativos para o seguinte. Começa a contagem decrescente.braga romana-bastidores 8Alongam-se os músculos, matam-se os nervos com um cigarro e baptiza-se com champanhe Cátia Gonçalves, a actriz que acaba de fazer a sua estreia. Neste caos aparente, artistas e técnicos protagonizam nos bastidores uma coreografia frenética que nada fica a dever à que sobe ao palco, com últimos retoques de maquilhagem, ajustes de som e luz, transporte apressado de caixas, pedras e tochas fumegantes. Neste breve e caótico intervalo as emoções estão à flor da pele. Entre a descompressão de quem desce do palco e a ansiedade de quem vai subir trocam-se abraços e palavras de incentivo. “Muito cócó!”, repete Carmen aos que vão entrar em cena, que devolvem o ritual escatológico em igual dose, pois a sorte nunca se agradece, apenas se retribui.

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No final, a calorosa ovação fez esquecer as teimosas gotas de chuva que caíram durante o espectáculo. A emoção transborda do palco e alastra ao público que devolve em palmas o esforço e dedicação de todos aqueles que fazem de Braga uma cidade culturalmente feliz.

 

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