Gonçalo Cadilhe: “Num mundo redondo não há centros nem periferias”

Moisés disse: “A lei é tudo.” Jesus disse: “O amor é tudo.” Marx disse: “O dinheiro é tudo.” Freud disse: “O sexo é tudo.” e, finalmente… Einsten disse:”TUDO é relativo”!   A anedota judaica serviu de motor de arranque para uma visita guiada ao lado mais visual do homem que habitualmente transforma em palavras aquilo que vê. Gonçalo Cadilhe viaja há 25 anos seguindo um impulso de descoberta que lhe é tão natural como as linhas que escreve. Entre uma dezena de livros editados, palestras e documentários, o mundo continua o melhor dos escritórios para o autor nascido na Figueira da Foz. Braga recebeu no Sábado a visita deste viajante compulsivo que esteve no Museu da Imagem para mostrar os registos visuais que condensou numa exposição intitulada “Um dia na Terra”, uma espécie de guia ilustrado do planeta para extra-terrestre ver. As 56 fotografias aqui expostas são, para os menos aventureiros, a melhor forma de viajar e perceber que afinal, num mundo de mentes quadradas, o planeta continua a ser redondo.

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Depois de duas décadas a viajar, o que mais mudou no modo como o fazes?

A própria viagem. Quando comecei a viajar, Portugal era um país ignorante daquilo que era viajar, não sabia até onde é que se podia ir e o que se podia fazer. No final dos anos 80 quando comecei esta aventura foi com um deslumbramento quase parolo que percebi que, afinal, o mundo era fácil. Para além disso a informação geral, a internet, os guias de viagens, os erasmus, tudo isso nos põe actualmente a viajar com uma facilidade brutal.

Presumo que a motivação não seja a mesma das viagens iniciais… sentes que a rotina já se instalou?

Infelizmente, ao fim de 25 anos a viajar de forma profissional, perdeu-se alguma da magia e encanto mas recupero-as quando chego a estes lugares extraordinários, seja ou não a primeira vez que os visito…Veneza é um exemplo disso, já a visitei inúmeras vezes e há sempre algo novo para descobrir.

O mundo continua a surpreender-te?

Permitir que o mundo nos continue a surpreender é também um trabalho pessoal. Temos que pesquisar a nível histórico, cultural, curiosidades naturais. Se ficarmos pela rama, o filão esgota-se rapidamente.


“Permitir que o mundo nos continue a surpreender é também um trabalho pessoal.”


Há algum local especial a que gostes de voltar (exceptuando a Figueira da Foz) ou onde ainda não tenhas ido?

Há vários.  Se tiverem páginas suficiente posso enumerá-los a todos! (risos)

Vamos por continentes então…

O sudoeste asiático, a África austral, a América central, a Oceânia e não posso deixar de lado a Europa, pois é o mais intrigante dos destinos que conheço.

gonçalo cadilhe museu da imagem 03Da tua experiência, que percepção tem o mundo do nosso país? Há uns anos o  futebolista Figo era a nossa “bandeira”, hoje é o Cristiano Ronaldo…. Nos destinos mais remotos, o que se conhece de Portugal para além do futebol?

Não conhecem nada. É difícil generalizar mas a associação ao futebol faz sentido nos países onde o futebol tem expressão. Nos Estados Unidos, por exemplo, isso não acontece. Tem sempre a ver com a nossa dimensão e com o que pomos a circular no planeta.

Durante a viagem o nosso corpo e espírito transforma-se, estando mais receptivo a outros estímulos e experiências, ainda mais viajando sozinho… Já cometeste alguma loucura?

Sim, nem sei por onde começar… Viajar é como quebrar um espartilho, ninguém nos conhece, nem nós próprios nos conhecemos…essa experiência permite-nos descobrir novas facetas da nossa personalidade, da nossa espontaneidade.  Não faltarão exemplos de coisas que fazemos fora, mas não na nossa terra.  Isso em Portugal é ainda mais evidente,  porque há muito este sentimento das pessoas de meterem nas vidas dos outros, com um olhar crítico, quase de inveja.

um dia na terra- livroOs livros tem sido companheiros inseparáveis do teu caminho. Como nasceu essa relação com a leitura, e posteriormente com a escrita?

Tive a sorte de nascer numa família que sempre cultivou o gosto pela leitura. Cresci rodeado de livros, por isso foi natural a ponte entre os livros e as viagens. Na fase da literatura juvenil havia naturalmente obras que aliavam a aventura às viagens, o que também ajudou.

Tinhas na altura algum autor de literatura de viagens como referência?

Eu não sabia o que era literatura de viagens… o que reparei anos mais tarde é que muitos dos autores que tinha lido tinham “biografias viajantes”, como foi o caso de Steinbeck, Hemingway, Edgar Rice Burroughs (criador do “Tarzan”), ou seja,  ao ler a biografia na contracapa dos livros destes autores percebi que tinham feito trabalhos em todos os locais onde tinham passado, desconhecendo na altura que isso viria a ter alguma importância no meu futuro.

O acesso a informação sobre qualquer local do planeta é hoje maior do que nunca. Consideras que isso pode destruir a experiência da descoberta do viajante?

É algo incontornável. A nossa sociedade está a evoluir para uma facilidade brutal em todos os sectores. Quando eu era adolescente conseguir, por exemplo, um vinil de determinada banda rock implicava muitas vezes esperar que alguém o trouxesse do estrangeiro. Éramos sôfregos de informação. Hoje em dia descarrega-se tudo e não dá valor a nada. Com as viagens passa-se o mesmo.

Mas inibes-te de consultar alguma informação antes de partir para manter essa magia intacta?

As minhas viagens são muito temáticas, muitas vezes baseadas na história ou cultura desse local. Eu preciso de fazer uma grande pesquisa para o trabalho que faço. O meu conselho para quem viaja é que se informe, que pesquise…

Mesmo correndo o risco de perder parte dessa magia?

Sim, porque na verdade não há nada como realmente lá estar. É sempre uma experiência insubstituível.

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Relativamente a esta exposição, o que nos podes contar?

Esta exposição está associada a um olhar relativista do mundo. Ao longo de duas décadas a viajar foi isso que aprendi: num planeta redondo não há centros nem periferias e por isso não temos o direito de achar que a nossa cultura é superior a qualquer outra. O objectivo da exposição é mostrar que são mais as semelhanças que nos unem que as diferenças que nos separam.

Todas as cidades, culturas e países tem as sua prioridade e lugar de honra e quando digo que esta é uma exposição para mostrar aos extra-terrestres como é o planeta Terra, o que eu quero é que as pessoas que a vêem sintam que fazem parte de um todo e não que estão num país ao centro do mundo, com dogmas e versões históricas que fora das suas fronteiras não fazem qualquer sentido.

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