Deolinda: “o factor surpresa faz parte da nossa identidade”

O que é isto afinal de ser português? O que distingue o homo lusitanus das outras espécies?  Será a fina ironia com que encara o seu fado?  a eterna alternância entre a vaidade e a resignação de ter nascido português? Ou a constante hesitação entre a preguiça e a aventura de se lançar ao desconhecido?… Se há alguém que pode responder a esta questão são certamente os Deolinda. Não só o sabem, como o cantam como ninguém. Pela sua música percebemos que o fado lusitano não é uma cruz que se carrega mas um brinde que se levanta, uma vida que se celebra. Contra todos os azares, desamores e austeridades.

Deolinda-Theatro Circo 01Da soma dos talentos individuais que subiram ao palco na passada sexta no Theatro Circo resultou mais do que uma operação aritmética. A química imediata com o público que veio para ouvir os velhos temas ou descobrir as “Novas Histórias”, o 4º álbum da banda e justamente considerado um dos melhores de música popular portuguesa da última década.  Ao leme do banda, Ana Bacalhau conduziu a plateia numa visita guiada ao universo Deolinda, com breves intervenções, sempre irrequietas e divertidas. No final ainda houve uma longa maratona de autógrafos e tempo para algumas perguntas:

 

Ainda se lembram da última vez que cá estiveram?

Foi há tempo demais! talvez uns 4 ou 5 anos… Nós temos uma relação muito especial com esta sala…os nossos técnicos de luzes formaram-se cá. Foi provavelmente nesta sala que tivemos pela primeira vez reunidas as condições técnicas para fazer um espectáculo com “E” grande. A sala é muito bonita, aqui o público está habituado à dinâmica dos concertos e fomos sempre muito bem recebidos.

Como tem sido o feedback a estas “Novas Histórias”?

Tem sido muito boa! Ainda há pouco, durante a sessão de autógrafos várias pessoas nos diziam que tinham vindo para ouvir os temas mais antigos mas acabaram por gostar muitos dos novos, que não conheciam. Pouco a pouco as pessoas vão ouvindo…e gostando.

Deolinda-Theatro Circo 02Há algum tema que tenha sido uma surpresa em termos de reacção do público?

O “Bons Dias” foi uma surpresa porque é lenta e normalmente os temas mais lentos não tem uma reacção tão entusiástica. O “Nunca é Tarde” também se incluí nas boas surpresas deste álbum.

Podemos então dizer que o Mundo já deixou de ser pequenino?

(risos) Digamos que é um mundo que tem vindo a abarcar muita coisa bonita!

O “corzinha de Verão” era o vosso às de trunfo para jogar este Verão?

Foi uma canção que se destacou no grupo das restantes e pensamos que poderia ser um bom tema de apresentação por trazer alguma novidade ao que já tínhamos feito…

Deolinda-Theatro Circo 03Mas tem ali um swing que até foge um pouco ao que é habitual…

Sim, e fazia sentido termos coisas diferentes neste disco. Começamos a apresentar este tema no Inverno e tem corrido cada vez melhor à medida que o tempo quente se aproxima. E por causa desta canção ficamos a saber como está o clima em vários locais do país. As pessoas identificam-se com o tema.

Imagino que as do litoral ainda mais, por causa da nortada…

(risos) sim! É verdade! Costumam dizer “este fim-de-semana esteve assim”.

Deolinda-Theatro Circo 04Há neste álbum um tema que marca pela diferença. “A velha e o dj” é um desvio assumida na vossa rota?

É um tema que reflecte a irreverência dos Deolinda. É algo que está bem patente noutras experiências que fizemos no passado. O factor surpresa é algo que faz parte da nossa identidade. Há uma série de anos tínhamos ouvido numa festa popular uma fusão muito rudimentar entre o nosso “movimento perpétuo associativo” e o “wegue wegue” dos Buraka. Quando começamos a ensaiar “a velha e o dj” pensamos que o tema ia precisar dum beat, daí a convite ao dj Riot.

Mas em termos logísticos como se processa essa inovação?

Já fizemos dois concertos com ele ao vivo, em Lisboa e no Porto. Em palco, ele dispara os beats e improvisa sobre eles. Na sua ausência temos ali uma “caixinha mágica” que resolve o problema.

Este tema é o exemplo máximo da exploração dos limites da música popular? Ou essa fronteira ainda pode ser alargada?

Se pensarmos em pontos de vistas mais específicos podemos apontar outros como o “Nunca é tarde”. Esteticamente sim, é um “ovni”, mas em termos de personalidade artística faz todo o sentido. É absolutamente Deolinda! É um tema inclassificável e quando nós aparecemos também tínhamos essa dificuldade de encaixar numa categoria. A verdade é que a maior questionamento em relação a este tema vem mais da imprensa do que propriamente do público que, embora saiba que é um tema diferente, percebe a proposta dos Deolinda e isso é gratificante.

Deolinda-Theatro Circo 05A simplicidade é o Santo Graal da criação artística? Será sempre esse o segredo do sucesso e longevidade de artistas como por exemplo António Variações?

É a coisa mais difícil que há! saber o que tirar da música é tão ou mais importante que saber o que lá deixar ficar. No caso do António Variações, ele trouxe uma novidade à lírica e à melodia em português, apesar da inovação de alguns arranjos. Somos, como tantos outros artistas, obviamente influenciados pela sua obra. É incontornável. Quer o trabalho dele, quer o dos Humanos marcou-nos muito, não conseguimos fugir muito a isso…nem queremos! (risos)

 

 

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