Afonso Cruz: “A leitura é o combustível da escrita”

“Entremos mais dentro na espessura”  – a frase, em jeito de oração, é pronunciada vezes sem conta pelo senhor Ulme ao longo do último romance de Afonso Cruz, numa luta inglória contra a memória perdida que o seu vizinho aceita resgatar. “Flores” é uma história comovente sobre dois homens unidos pelo infortúnio. O senhor Ulme, que desesperadamente vê perdidas as suas recordações afectivas e o vizinho que acorre em seu auxílio, enquanto enfrenta a erosão do seu casamento.

flores afonso cruzResolvemos também “entrar mais dentro na espessura” do universo do autor. A escrita é apenas o tentáculo mais visível deste polvo criativo. Afonso Cruz realizou filmes de animação, é compositor, instrumentalista, letrista e vocalista na banda Soaked Lamb, cria regularmente ilustrações para livros, revistas ( ilustrou cerca de 30 livros para crianças, trabalhando com autores como José Jorge Letria, António Torrado e Alice Vieira) e fotografa muito, sobretudo nas viagens que já o levaram a mais de 60 países. Leitor compulsivo, escreve com a mesma paixão com que abraça qualquer outra tarefa, tentando sempre superar-se em tudo o que faz, o que incluí a produção de cerveja artesanal na sua casa em Sousel, no Alentejo.

Afonso vê a cultura como o combustível da criatividade e motor de desenvolvimento económico e acredita na responsabilidade social dos escritores. Nos seus livros há uma componente emocional marcante onde os grandes temas da literatura como o amor, a memória e a morte são abordados com tanta profundidade como elegância, num estilo original e com uma estética muito própria. Em todas  as suas obras encontramos essa rara capacidade de nos transportar para um terreno desconhecido, algo que torna a leitura cativante e sedutora. Essa abordagem original, combinada com o desafio constante que é lançado ao leitor a ver a realidade dum novo prisma resulta num surpreendente equilíbrio na narrativa e é seguramente um dos trunfos que lhe tem valido prémios e um lugar de destaque na literatura portuguesa.

afonso cruz

A esta distância, como olhas para a tua primeira obra “A carne de Deus” classificada na altura como um “thriller satírico e psicadélico”? Podemos esperar uma reedição?

Talvez, mas não para já.

Depois de tudo o que publicaste e sabendo do feedback por parte do público a cada livro, ele condiciona de algum modo os temas ou o modo como escreves? Achas que isso pode acontecer inconscientemente? (repetir uma fórmula que teve sucesso)

Pode acontecer e acho normal. Olho para a literatura como um diálogo e não como um discurso de um púlpito. Mas isso não quer dizer que, pelo menos conscientemente, escreva o que o público quer ler. Isso seria, para mim, tão mau como um jornalista escrever apenas notícias que as pessoas quisessem ou que um cientista adequasse as suas teorias à vontade dos leigos. Mas noutros aspectos é possível mudar e melhorar. Se eu, por exemplo, quiser ser claro e objectivo numa frase e os leitores me disserem que é um discurso ambíguo, então errei em alguma coisa. Ou seja, não escrevo para fazer a vontade a ninguém, tento usar de plena liberdade e sinceridade, mas o que os leitores interpretam daquilo que escrevo pode não corresponder à minha intenção e, nesse caso, há que aprender e mudar (para executar melhor o que pretendemos e não o que o público pretende).


“Saber que tudo é fugaz faz com que tudo se torne precioso, irrepetível e único”


Para quem se inicia na escrita, achas fundamental ler os clássicos? Que obras consideras obrigatórias ou te marcaram indelevelmente?

Acho que é muito importante ler. Há excepções, mas normalmente a leitura é o combustível da escrita. Quanto aos clássicos, acho que são referências dentro de uma sociedade e se queremos estabelecer um diálogo com a cultura em que nos inserimos, então creio que a sua leitura é importante. É bom saber o que foi feito e de que maneira, para percebermos com mais facilidade onde podemos inovar, melhorar, criar rupturas. Os clássicos fornecem o apoio para essas possibilidades.

Não considero nenhuma obra obrigatória. Acho que a literatura deve ser um espaço de liberdade.

Sobre as minhas preferências, gosto mais de falar em autores do que em obras:  Dostoievsky, Thomas Mann, Gorki, Kazantzakis, Tolstoi, Lem, Pessoa, Dylan Thomas, E. E. Cummings, Kurt Vonnegut, Homero, Rumi…

afonso cruz 03O que estás a ler neste momento?

A Brief History Of The Philosophy Of Time

A paternidade alterou certamente a tua rotina de escrita e leitura. Com dois filhos, que dose de disciplina é necessária para gerir e rentabilizar o dia?

A paternidade alterou muitas coisas de forma radical, mudou muitas rotinas, mas a disciplina não aumentou. Aliás, nunca precisei de disciplina para escrever ou ilustrar. São coisas que gosto de fazer e que fazem parte da minha natureza, um pouco como o meu nariz ou as unhas ou o coração.

Que obras lhes tens reservadas para primeiras leituras?

Nenhuma. Não lhes imponho leituras. O que gosto de fazer é criar acessibilidade. Deixo os livros ao seu alcance, e por vezes falo-lhes de uma ou outra ideia ou história que tenha alguma relação com aquilo que estão a viver.

Os hábitos de leitura em Portugal continuam muito abaixo de outros países europeus. Num mundo de overdose informativa e em que tantos gadgets e redes sociais disputam a nossa atenção, como se rema contra esta maré? O actual sistema educativo está a cumprir o seu papel?

Temos menos leitores do que alguns países europeus, mas não creio que tenha qualquer relação com gadgets e redes sociais. Já tínhamos menos leitores antes do aparecimento dessas tecnologias. Culpar os iPads e os computadores é um raciocínio falacioso. Detectamos um problema, como a falta de leitura, olhamos para o tempo livre das nossas crianças e como o preenchem, e constatamos que estão vidrados em ecrãs. Há vinte anos atrás, constataríamos o mesmo problema de falta de leitura, chegando à conclusão que as crianças não liam porque passavam o tempo na rua a jogar à bola e à apanhada e ao berlinde e ao pião.


“Publicam-se em Portugal entre quarenta a sessenta livros por dia. Isso deve querer dizer que há pelo menos quem os compre”


Acho que hoje se lê mais do que há uns anos, por vários motivos: há menos analfabetismo (a maior parte das crianças hoje em dia está a aprender a ler na escola em vez de estar a trabalhar nos campos ou numa fábrica), os livros estão mais acessíveis, há mais bibliotecas e livrarias (é difícil entrar numa casa e não encontrar livros. Dantes, nem sempre era assim). Publicam-se em Portugal entre quarenta a sessenta livros por dia. Isso deve querer dizer que há pelo menos quem os compre.

afonso cruz 02Berkeley defendia que todos os corpos que compõem a estrutura do mundo  não possuem nenhuma subsistência sem uma mente. Faz sentido para ti um universo que baseia a sua existência em alguém que o percepcione?

Sim. Concordo com muito do que Berkeley dizia. Sou daquelas pessoas que acha que uma árvore não faz barulho ao cair se não estiver ninguém a ouvir.

Pelo que é possível ler (-te), tens uma relação pacífica com a mortalidade. Vês a morte como um motor da vida, que nos força à urgência das decisões que tomamos.  Recordas-te do teu primeiro contacto com a morte?

Não tenho uma relação pacífica, bem pelo contrário, contudo, ainda que paradoxalmente, reconheço-lhe importância para a nossa felicidade e para a criação de qualquer sentido que lhe queiramos dar. Sem a sensação de efemeridade, provavelmente não sentiríamos a beleza do reencontro ou da arte ou da natureza, e não valorizaríamos um momento ou uma pessoa ou um vinho ou uma música. Saber que tudo é fugaz faz com que tudo se torne precioso, irrepetível e único.

Em “Flores” referes-te às frases como “armas capazes de disparar o futuro”. Vês a escrita como um posto privilegiado para alertar consciências? Sentes esse dever quando escreves?

Não acho que seja um dever, mas é uma ferramenta que um escritor tem à disposição, que poderá ou não utilizar, conforme a sua vontade ou consciência. Eu, pessoalmente, sinto que seria um desperdício não a usar.

afonso cruz 04Sendo alguém que divide a sua criatividade artística em áreas tão distintas como a ilustração, a literatura, a música e até a fotografia,  encontras algum denominador comum que esteja presente em todas elas? Eventualmente uma certa melancolia?…

São formas de expressão, de partilha, de comunicação. E, para mim, são também formas de ser feliz.

As viagens cada vez te ocupam mais tempo. Sentes que elas irão inevitavelmente moldar as tuas próximas obras? Ou já tens algo em mente?

Viajo mais em trabalho, mas antes de começar a escrever viajava tanto ou mais do que agora. De resto, os meus livros são passados em várias geografias diferentes, e mesmo quando a história está circunscrita a um território limitado, arranjo maneira de enfiar lá o mundo todo: se a geografia não mudar, trago personagens de outros países para frutificar o diálogo e enriquecer aquela zona com outras vivências e culturas.

Tenho escrito uma crónica mensal para o JL sobre viagens e, em breve, publicarei esses textos.

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