Adolfo Luxúria Canibal: ” Os tempos são de Crise e Afrontamento”

Adolfo Luxúria Canibal, entre o rock e o direito

Badio – O que andas a ouvir neste momento?

ALC – Vinha no carro a ouvir uma futura edição dos Cadeira Eléctrica, e um outro trabalho recente duma banda de Vila do Conde. Tudo produção nacional.

Badio – E o novo disco dos Mão Morta? Presumo que a polémica com o video tenha servido de alavanca para as vendas, não?

ALC – Saltamos directamente para o 4º lugar, mas o videoclip e a polémica que gerou aconteceu antes disso. De um modo geral as vendas estão a correr bem.

Badio – Como vês actualmente o panorama musical português?

ALC – É engraçado porque estamos num ano de crise, mas estes 3 meses tem tido uma produção riquíssima em termos de quantidade e qualidade. Deixa-me muito satisfeito ver que continuam a acontecer coisas muito interessantes no nosso país.
Badio – E em Braga? Alguém que se destaque?
ALC – Este ano ainda não, mas no ano passado saiu um disco extraordinário dos Peixe Avião, saiu também o primeiro dos Ermo, que apesar de menos impacto mediático e ser uma música mais difícil, tem também muita qualidade.

“O GNRation nunca funcionou e parece que vai continuar a não funcionar”

Badio – Já não se vê ninguém a actuar de pijama neste país, achas que faltam “lobos maus” na música nacional ?
ALC – Nunca se viu muito (risos). Há momentos para tudo…a arte tem dessas tipologias.
Badio – Mas estamos num período mais sereno?
ALC – Não. As pessoas procuram outras formas e tentam não repetir o que já foi feito e isso é salutar. É normal que não haja novos pijamas em palco, os tempos são de crise e afrontamento.
Badio – O insólito episódio de auto-flagelação em palco (facada na perna)…Ainda te reconheces nesse momento?
ALC – Claro que me reconheço. Foi em 1989, salvo erro…era outra época, eu era outro, mas foi uma época rica, foram bons momentos e esse foi um bom momento, com tudo que possa ter de estranho.

“É inevitável acalmar com a idade”

Badio – É inevitável acalmar com a idade?
ALC – Normalíssimo… a partir do momento em que se começa a ter um controle sobre o real, começa-se a perder esse espírito mais aguerrido e aventureiro. A aventura está ligada ao desconhecido, logo, quando já se conhece, já não se repetem os mesmos passos. Continuo aventureiro, mas agora há um redireccionamento de energias, se que me quero aventurar, o caminho não pode ser o mesmo.
Badio – A nível local, entre o Theatro Circo e o GNRation, que espaço há em Braga para novas bandas mostrarem o seu trabalho?
ALC – As bandas em Braga tem vida mais facilitada que noutros pontos do país. Braga tem uma sala de ensaios, mas as novas bandas não tem muito espaço para tocar. A sala pequena do Theatro Circo pode abrir-se a essas bandas mas não é solução. O GNRation nunca funcionou e parece que vai continuar a não funcionar, apesar da transição política. Há espaço, mas não sei se há ideias por detrás daquilo…Sei que uma grande associação nacional de fotografia queria disponibilizar o seu espólio de fotojornalismo para a cidade de Braga, apenas pretendiam um espaço para o fazer, contactaram o GNRation e os responsáveis do espaço mandaram-nos passear, dizendo que a ideia que tinham para o GNRation era outra. Quando se desperdiçam oportunidades destas, não se pode esperar muito das ideias de quem está à frente destes espaços.
Badio – Se tivesse que dar um conselho a uma nova banda em início de carreira, qual seria?
ALC – O que dou sempre: acreditem no que fazem, nunca desistam. Tenham auto-crítica suficiente para perceber o que está mal e como hão-de fortalecer os seus pontos fortes.
Antigamente era difícil gravar, hoje em dia é muito fácil por um disco cá fora e isso é um problema pois, mesmo com qualidade, um músico arrisca-se a passar despercebido.
Badio – Olhando para trás, o que o orgulha mais neste longo percurso?
ALC – O facto de existirmos há 30 anos e a amizade que se criou entre várias pessoas. Em termos artísticos, orgulham-me muitos dos discos que fizemos. O primeiro álbum é uma chapada no charco, a urgência daquelas canções é intemporal. “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável” é uma obra bem feita, que ainda hoje me pergunto como fizemos aquilo…. O “Primavera de Destroços” é um disco que encanta ouvir, entre outros…e depois há espectáculos memoráveis, como foi o caso do último que demos no Primavera Sound, verdadeiramente inesquecível.
Badio – E o que ficou por fazer?
ALC – Duma forma consciente, não ficou nada, porque não aspirávamos a fazer tanto. Tínhamos o objectivo de, passado alguns meses, conseguirmos actuar em Berlim. Esse objectivo ainda nos está atravessado na garganta, mas ainda vamos a tempo!

“Não há grande atractivo para sair à noite em Braga”

Badio – Onde costumas badiar em Braga?
ALC – Eu badio pouco… entre o trabalho como jurista, o apoio à minha mulher no restaurante e os concertos com os Mão Morta, sobra muito pouco tempo.
Badio – Sais à noite?
ALC – Não. Não há grande atractivo para sair à noite. As pessoas em Braga saem para beber copos, eu não bebo, logo, a menos que haja um espectáculo ou concerto, não tenho grande motivação para sair.

 

B.I.

  • Clube: Sporting Clube de Braga
  • Prato: sushi, cuscus (cozinhado à francesa), língua estufada e tripas à moda do Porto
  • Bebida: água e leite
  • Música: é o meu hobbie, o meu trabalho, logo não tenho uma que possa escolher… Os Swans, onde encontrei o caminho para usar a voz, os Stooges, que fizeram aproximar e gostar do rock, os Sex Pistols, pela forma como me ensinaram a sentir as vísceras profundas que o rock pode trazer à superfície.
  • Filme: “Week End” de Godart, “O Fantasma da Liberdade” de Bunnel e “ A Palavra” de Ordet
  • Lema de vida: “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”.

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