AZEVEDO SILVA ou o Último dos Cantautores Intervencionistas Portugueses…

Um destes dias tive uma conversa, com quase dois meses, entre telefonemas; descobertas e desencontros; emails; constatações e novidades.

Urbano, precário, melancólico, agitador, pós-laboral. – Assim se apresenta Azevedo Silva no BandCamp, a quem o visitar.

Luís, Azevedo Silva, nasceu a 21 de Setembro de 1982, em Lisboa, filho de pais que tiveram de abandonar Angola após o 25 de Abril de 1974, com o estatuto de refugiados.

O pai tinha sido animador de um programa da Rádio, isso influenciou os seus gostos musicais anos mais tarde, quando escutava as emissões que ele continuava a simular na sua sala de estar. Nomes como Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, The Doors, Pink Floyd, Zeca Afonso, José Mário Branco ou Fausto estiveram presentes desde muito cedo no seu quotidiano. Cedo, também, começou a revelar gosto pela música quando, também ele, simulava as suas emissões de rádio.

 

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foto: Cláudia Andrade

Por volta dos 12 anos aprendeu a tocar guitarra sozinho – escutando os seus mestres. Fazia as suas gravações num pequeno gravador e deu o primeiro concerto num Festival da Escola que frequentava aos 16. Foi , e a assistir aos concertos de amigos mais velhos, que percebeu que aquela era a paixão da sua vida, vindo a ganhar forma na sua primeira banda, Madcab. Mais tarde frequentou aulas de canto com o Professor João Charepe. Paralelamente aos Madcab continuou a gravar temas sozinho mas que iam ficando na gaveta.

 

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foto: Cláudia Andrade

Com o tempo, criou uma webzine sobre música (projecto fugaz), foi animador da Rádio Zero em Lisboa (A Tartaruga Política, O Ballet das Bonecas Russas e o Contrabando, programas musicais de cariz político), participou nos debates sobre as quotas para a música nacional na Assembleia da República, abandonou a Faculdade que frequentava, tirou um curso de Escrita Criativa, escreveu crónicas para a Associação 100 Ideias e até fez parte da Assembleia de Freguesia do Monte Abraão.

Em 2006, quando começou a viajar mais seriamente, adoptou o nome de família em homenagem ao avô que nunca conheceu, Luís Azevedo Silva jr. Começou a contar histórias em Português e a acompanhá-las com a guitarra, gravou o EP “Clarabóia“, dedicou-se ao seu disco de estreia “Tartaruga” e lançou, com mais dois amigos, a editora independente Lástima.

De destacar os inúmeros concertos que deu. Logo no início tocou na Dinamarca, Alemanha, Bélgica e França. Depois teve um período de crescimento constante e acabou por ir ao Brasil, desejo antigo, seu, que carregava. Tocou no Festival El Mapa de Todos com outros músicos Ibero-Americanos, em Brasília. Quis o destino que a noite do seu concerto fosse a mesma do Marcelo Camelo e o auditório estava esgotadíssimo para ouvir a actuação dele. Para que brilhasse mais a sua estrela, Marcelo Camelo estava a tocar com a banda Hurtmold, de São Paulo, que eram audição assídua, sua, na altura. – Foi uma experiência demasiado luxuosa e quase surreal. – usando as palavras do próprio. – Tocar no Avante também foi interessante, embora por essa altura já fosse óbvio, para Azevedo Silva, que esse espaço político tinha tanto de progressista como de intolerante/retrogrado.


“Ouvir Azevedo Silva obriga a pensar e a sentir.”


Há uma sombra. E aqui começa o motivo deste texto. Há uma sombra doente sob os cantautores como Azevedo Silva, apesar de brilhante, de voz doce, acutilante… com um percurso fabuloso, Portugal e os Portugueses teimam em não lhe dar o reconhecimento merecido. Onde já vimos isto? – E há tantos palcos de luxo cheios de lixo.

– “Se por um lado penso que a minha música não é para “massas”, por outro também me parece que fui demasiado “esquecido”.” –

Deveria ter sido Carrossel merecedor de mais algum destaque, e atenção… Mas Portugal insistiu em continuar distraído. Para trás (Clarabóia, Tartaruga, Autista) ainda as primeiras experiências, a amadurecer.

… Era, ainda é, difícil ter entrada num circuito comercial… Se calhar, penso eu, ouvir tipos como o Azevedo dá muito trabalho.

Obriga a pensar e a sentir.

Hoje o povo gosta do imediato, do arraial, do fácil, pelo menos até ao próximo tombo, nome que carinhosamente dou às revoluções. Aí, vão buscar os cautautores ao baú bolorento da alma e berram as canções deles, maltratando a guitarra dos escuteiros, pendurados em muros e tanques de guerra!

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foto: Cláudia Andrade

Só que o Azevedo Silva, é um intervencionista na alma, também, e isso é capaz de meter medo. Lidar com as dores sociais é fácil. Hoje somos todos “Charlies”, mais logo somos o Clube exaltado com o árbitro. Agora lidar com as dores interiores, aquelas que nos acompanham, sem autorização, e nos atormentam. Essas! As que a ninguém contamos, Azevedo Silva canta-as, de voz doce, para que o punho das palavras melhor encontre o caminho. Para que o soco seja certeiro.

Desaparecer é o meu deus, sempre presente. Cosam-me a boca p’ra calar tudo o que penso. É tão fodido entender o silêncio eterno.“ – BússolaCarrocel

Em contraste tocar no Brasil, viajar pela Europa com a guitarra, ser falado na Rolling Stone da Argentina, dar entrevistas para televisões de Cuba, Argentina, Paraguai, Brasil, Colômbia; foram realidades vividas por este ser corajoso.

azevedo silva 04Quando lhe pergunto que momentos dramáticos teve na carreira, diz que nunca os teve, felizmente. E remata –

“Claro que há os vários momentos em que a tua vida pesa mais que o normal mas nada directamente relacionado com a música. Acho que compreender que o meu projecto teve tantas mutações forçadas me deixa um pouco triste e, às vezes, resignado. Isto porque as pessoas com as quais comecei esta aventura já não vivem aqui em Portugal e/ou saíram da minha cidade. E nesse aspecto sou muito mau a fazer novas parcerias porque quando descubro gente com a qual gosto muito de trabalhar, é difícil arranjar novos compromissos.”

E a respeito de momentos cómicos –

“Um dos momentos cómicos que nunca vou esquecer foi quando toquei em Castro Verde e logo no fim da primeira música, um tipo já alcoolizado, começou a gritar que eu não cantava nada e que me podia ir embora. Depois o resto da noite foi curioso também porque o dono do espaço disse que não lhe vendia mais nada se ele não me pedisse desculpa. A conclusão é que tive de levar com o homem o resto da noite, a pedir-me desculpa e a lamentar-se pela sua conduta.”

 

A arte pela arte foi a sua motivação inicial. À medida que foi crescendo artisticamente, também as ambições se alteraram. Se no início ter 10 mil downloads (no tempo das netlabels) parecia uma coisa astronómica, se calhar agora sabia a pouco, não sei, talvez.

No fundo, depositou a ideia de um legado na música que fazia. Algo palpável que o representasse no futuro. O tempo, aquele em que não acredito, mudou-lhe a perspectiva. Acerca do assunto disse:

“Hoje em dia sai tanta coisa que o mais certo é todos estarmos condenados a ser esquecidos no meio de tanta informação.”

A música também foi sempre uma forma de fazer terapia, talvez. Quem o ouve cantar, pensa que Azevedo Silva é uma pessoa triste, não podia ser maior o engano. Talvez pela música veicule mais as frustrações ou dúvidas existenciais. No fundo, independentemente de tudo o que o move, o objectivo é sempre fazer melhor que o disco anterior, e trazer sempre novas qualidades à obra.

 

azevedo silva 02No ano em que completa 10 anos de carreira, Azevedo, de forma surpreendente, deciciu dedicar algum tempo ao futebol – “porque tenho uma paixão por estratégia e desporto”, já antes, investiguei, terá jogado Basket. Está neste momento a jogar na equipa do Grupo Sportivo Carcavelos.

“É uma espécie de ano sabático que, já agora, começou, por coincidência, no ano em que me casei!” – remata Azevedo, algo me assobia que não vai ser assim.

Confessou ter um projecto novo na gaveta, para sair assim que estiver disponível mentalmente para o terminar. – Nós esperamos Azevedo, os que já ouvem a tua música e, de certeza absoluta, os que a vão escutar depois de lerem este artigo.

 

Como pedra de toque, ao longo da entrevista, e telefonemas, Azevedo, menciona alguns amigos com os quais, diz, ter aprendido e partilhado bons momentos na música: o Fernando Matias (produtor, Pentagon Audio Recordings), o Filipe Grácio, Filipe Magalhães, Dino Rubio, Filipa Vale, Luís Costa, Nuno Silva, Bruno Martins, Pedro Moreira, Pedro Gancho, Sónia Abrantes, Hugo Rodrigues ou Cláudia Andrade. Não sendo esta uma lista de nomes, ou um Gang pronto para a Nova Revolução das Almas, é com certeza um punho cheio de nomes que traz dentro de si. Aquele, responsável pelo que de mais dentro se nós, se escreve, em Portugal.

 

“Ontem quis crescer, sentir-me bem maior.
Sonho eterno e fácil de alcançar.
Mas passo a passo vi como é bom caminhar.
Como faço p’ra voltar atrás?…” –
Crescer – V

 

Muito mais há para escrever deste homem, mas essa é a parte que series vós a escolher.

 

 

Links Imperdíveis –

https://azevedosilva.bandcamp.com/

https://www.facebook.com/azevedosilva

 

 


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