Um quarto fechado ao mundo

Quando Leonard (ou Lenny) Abrahamson escreveu cinco páginas a Emma Donoghue para lhe explicar o que sentiu ao ler “Quarto” e por que razão era ele o realizador certo para adaptar o livro ao cinema o seu currículo não correspondia às suas ambições. A data na carta é 14 de fevereiro de 2011. Cinco anos depois, no momento em que escrevo estas palavras, Abrahamson realizou um dos filmes-sensação de 2014, chamado “Frank”, protagonizado por um Michael Fassbender que nunca dá a cara em cena, e está agora nomeado para o Oscar de melhor realizador por – surpresa – “Quarto”. A disputa entre melhores argumentos adaptados é curiosa: não só Emma Donoghue, irlandesa autora do livro que dá origem ao filme “Quarto”, está nomeada, mas o escritor inglês Nick Hornby está nos cinco finalistas para o Oscar, com a sua adaptação de “Brooklyn”, do irlandês Colm Tóibín.

quarto filme 2015-2“Quarto” é um portento. A história do filme (que é sobre o que aqui escrevo e não o livro) é simples: uma mulher é raptada e enclausurada; tem um filho, em cativeiro, que nunca conheceu o mundo fora daquilo a que chama quarto. Para sobreviver, a mãe cria um mundo de fantasia para o filho. A dada altura, conseguem escapar do quarto e o universo nunca pareceu tão grande como naquele momento.

O filme é um feito de realização também, não só de argumento e de interpretação (já lá vamos). Como prometia na carta que endereçou a Donoghue, Abrahamson foi de facto capaz de construir um mundo dentro de um quarto. Onde uma criança aprende a ler, por força da mãe, faz exercício, brinca, come e dorme. Tudo naquele quarto tem significado e a única luz natural entra por uma clarabóia. A cena em que Jack, a criança, sai do quarto e encara o céu azul e as nuvens pela primeira vez é estonteante. É uma recordação das coisas bonitas do mundo, ignoradas por se estar na sua companhia todos os dias. Aquilo que se valoriza apenas quando está em falta.


“ “Quarto” é duro. Tão duro quanto se pode esperar que um filme sobre uma mãe e um filho presos seja.”


O filme está partido em dois: dentro do quarto e fora do quarto. Como indicou o realizador na sua carta, as dificuldades que surgem à família na sequência da saída do quarto são fruto do sucesso que a personagem da mãe tem ao construir todo um universo dentro de um espaço tão confinado quanto aquele. Há ainda margem para uma dura crítica ao sistema mediático, que é passível de comparação com casos reais, com a sua transformação daquilo que é sofrimento em espetáculo. Portugal não está menos familiarizado com tais fenómenos.

Room“Quarto” é um filme raro que consegue equilibrar diversos elementos sensíveis. Contado seria difícil de acreditar: temas como abuso sexual, maus-tratos infantis, depressão, são articulados com mestria muito por arte da argumentista, com outra tanta ajuda do realizador e a incontornável presença de Brie Larson (mais do que merecida vencedora do Globo de Ouro para melhor atriz num drama) e de Jack, um espetacular Jacob Tremblay, que é deslumbrante.

“Quarto” é duro. Tão duro quanto se pode esperar que um filme sobre uma mãe e um filho presos seja. É também uma beldade cinematográfica, humilde e honesta, longe o suficiente das manipulações que podiam ser de esperar num filme tão delicado. Em estreia hoje em Portugal.

 


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