Tarantino fez um suspense e chamou-lhe um western

Tinha de acontecer. Era inevitável. Mais dia menos dia, Tarantino iria fazer um filme só de diálogo. Com o mínimo de mudanças de cenário e o máximo de interação entre o elenco. Imaginem uma peça de teatro dirigida pela pessoa que criou “Pulp Fiction”. Filmada da melhor maneira possível. Pois bem. Assim é com “Os Oito Odiados”, talvez o filme mais verbal de Quentin Tarantino e que, apesar disso, não lhe valeu a nomeação para melhor argumento. Nomeados por este filme só a estupendamente regressada Jennifer Jason Leigh (num ano em que também protagoniza um filme de outro realizador-ícone de Hollywood: “Anomalisa”, de Charlie Kaufman), o diretor de fotografia Robert Richardson (“Os Oito Odiados” foi filmado em 70 milímetros, em “homenagem ao estilo de exibição de grandes filmes popularizado nos anos 1950 e 60”) e o também estupendamente regressado Ennio Morricone, agora com 87 anos num trabalho pelo qual já venceu o Globo de Ouro. De notar, a propósito deste último ponto, que foi a primeira vez que Tarantino usou uma banda sonora inteiramente original.

Um ‘western’ em aparência apenas, “Os Oito Odiados” trata-se de um filme de suspense, para não dizer horror apenas porque Tarantino decidiu não dar esse passo. Podia ter dado, não o quis fazer.

oito odiadosNo filme, um caçador de recompensas (Kurt Russell) quer levar à justiça a personagem de Jason Leigh para que seja enforcada. Na tradição das melhores narrativas, a história dificilmente poderia ser mais simples: protagonistas vão de A para B, mas antes veem-se obrigados a parar em C, onde há o derradeiro confronto.

A ligação mais fácil de traçar aqui será com um outro filme, não realizado por Tarantino, mas por John Carpenter, também com banda sonora do compositor italiano: “Veio do Outro Mundo”, um título absurdo para o original “The Thing”. Nesse filme, que tem outro ponto de contacto com “Os Oito Odiados” na figura de Kurt Russell, ator-fetiche de Carpenter, o suspense é permanente e mais do que o suspense, a suspeita é permanente. Tal como aqui. Em “Os Oito Odiados” é-se convidado a suspeitar de todos quantos surgem em cena. E até fora dela (como é o caso do personagem interpretado por Channing Tatum). Ao longo de perto de três horas de filme, só – talvez – não se desconfie de Samuel L. Jackson. Pelo historial que tem com Tarantino, mas, mais importante do que isso para este caso, por ser dos personagens mais políticos que o realizador alguma vez criou. Mais até do que “Django Libertado”, o personagem de Samuel L. Jackson é um resistente, pela cor de pele e pelo combate que leva ao longo de todo o filme. É ele que não pode confiar em ninguém. Não somos nós que não podemos confiar nele. Não pode confiar porque só pode contar consigo para sobreviver. A lamentar, no contexto político, as poucas oportunidades dadas a Jason Leigh de se expandir e a violência como é tratada em permanência, sendo a única mulher da narrativa. Em 2016 já se passava sem tal.

“Os Oito Odiados” é o melhor filme de Tarantino desde “À Prova de Morte”, também ele com Kurt Russell, mas, inversamente, talvez o menos verbal dos filmes do realizador. Tarantino considera que só se pode chamar a alguém um realizador de ‘westerns’ a partir dos três feitos. Falta um, então. Ficamos à espera.


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