Podia ser melhor, mas são só os Oscares

Nunca é fácil escolher quando há fartura. Este ano os Oscares são um quadro de maior abundância qualitativa do que em épocas recentes. No ano passado ganhou “Birdman” quando devia ter ganhado “Boyhood”, em 2014 ganhou – e bem – “12 Anos Escravo”, um ano antes venceu “Argo” numa categoria onde “Bestas do Sul Selvagem”, “Amor” ou “00:30 Hora Negra” fariam melhor figura com a estatueta na mão.

A escolha justa em 2016 seria entre “Brooklyn”, “Mad Max” e “Quarto”, mas suspeito que será repartida entre “O Renascido”, “A Queda de Wall Street” e “Spotlight”.

Cate Blanchett em "Carol"

Cate Blanchett em “Carol”

Por que razão não está “Carol” entre os nomeados transcende-me, mas as escolhas são as dos seis mil membros da Academia que tanta polémica geraram mais uma vez pelas seleções maioritariamente brancas feitas este ano à semelhança do que tem sido prática corrente.

Os prémios são em geral um disparate. Não vou gostar mais de “O Renascido” se o filme de Iñarritu vier a vencer na principal categoria ou se DiCaprio capturar o que há muito lhe escapa (merecidamente). Da mesma maneira, continuarei a encarar “Carol” como potencialmente o melhor filme do ano mesmo estando fora da competição para Melhor Filme. No entanto, confesso que se Cate Blanchett ou Brie Larson não vencerem melhor atriz atirarei algo pelas paredes. Ou não.


“Transcende-me por que razão não está “Carol” entre os nomeados.”


Sabemos que nada disto importa. A cerimónia dos Oscares vale o que vale porque é uma maneira de nos pôr a discutir cinema. E por isso vale a pena. Vale a pena desde que discutamos os méritos dos filmes, as suas narrativas opostas, o valor dos atores, a qualidade da fotografia, as opções dos realizadores. E as opções da Academia também.

Para muitas pessoas, são estas listas que lhes dão indicações do que foi bom no ano que passou – o que pode ser bom, mas também ter o seu efeito pernicioso. Posso ver “Creed” (decente) e ignorar as categorias de animação, por exemplo, onde a competição roça o absurdo. Colocar “Anomalisa” (muito bom, de Charlie Kaufman e Duke Johnson) face a “Ovelha Choné” (decente) só pelo critério da animação é questionável.

Benicio del toro em "Sicario"

Benicio del toro em “Sicario”

Posso espreitar “Ponte de Espiões” (decente, com uns Tom Hanks e Mark Rylance em grande forma), mas ignorar o extraordinário “Sicario” de Denis Villeneuve, apenas nomeado para Melhor Fotografia pelo trabalho de Roger Deakins.

Sem nunca esquecer a vergonha que é a falta de diversidade nas nomeações e nos premiados, há que reconhecer que haver uma noite no ano que tira o sono a milhares de pessoas mundo fora para ficarem acordadas em devoção à Sétima Arte é algo que torna o mundo do cinema melhor. Apesar de tudo, apesar das nomeações menos boas, de quem fica de fora, há este lado positivo. Esta parte que consola o ingénuo cinéfilo que há em mim. Depois começo a pensar e a refletir e a perceber que talvez não seja bem assim. Talvez por momentos apenas o seja.

Dito isto, se George Miller ganhar o Oscar de Melhor Realizador vou buscar a garrafa de whisky para celebrar. Desfrutem do vosso domingo e boa sorte para quem – como eu – vai trabalhar na segunda-feira de manhã.


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