O fim do mundo não chega

O fim do mundo vende. Vende desde que nos lembramos de ter consciência da nossa mortalidade. Porque é sempre face a essa mortalidade que tudo o resto se define. Somos felizes e infelizes na face da nossa mortalidade. Fazemos humor na face da nossa mortalidade. Pode não nos cruzar os pensamentos. Pode nem sequer ser algo do qual nos lembramos. Hoje, amanhã, para a semana ou depois. Porque se a ideia é em si dura, a concretização dessa abstração em palavras é-o ainda mais: um dia, vamos todos morrer. Desaparecer. E um dia não estaremos cá para ver o planeta desfazer-se em pó nas estrelas. Ao contrário do que seria de esperar, este facto da finitude é recorrente naquilo que são os mundos de fantasia que se veem, ouvem e leem. Há muito, muito tempo. O fim do mundo é uma constante na ficção (e na religião). A atração não deixa de existir. Seria de esperar que nos afastássemos do fim, da morte, da devastação e não que fossemos em hordas ver filmes que mostram como seria a destruição de cidades inteiras e de planetas. Mas vamos.

civil warEscrevo sobre isto porque, sentado na sala de cinema para ver Capitão América: Guerra Civil apercebi-me de que todos os trailers que antecederam o filme eram sobre o fim do mundo. Todos. Não havia nenhum independente focado no trabalho dos atores. Não havia nenhum romance em que as duas pessoas, como eu e tu, eram o centro das atenções. Eram sobre o fim do mundo e o que havia a fazer para o travar. Fosse o novo X-Men, fosse o Suicide Squad ou o novo Dia da Independência, o fim do mundo vende e está na moda. Sempre esteve.
Guerra Civil tem dois filmes dentro. Distante daquilo que é o argumento da banda desenhada original que lhe dá nome, procura, tal como a débil BD, forçar o conflito entre personagens já bem conhecidas do público. Porque toda a gente quer ver pancada entre o Homem de Ferro e o Capitão América, certo? Da mesma forma que toda a gente quer ver o Batman e o Super-homem a destruir meia cidade. Guerra Civil foi a resposta da Marvel à DC no cinema e é tão deprimente como o seu homólogo do universo ao lado. A primeira metade do filme é sofrível de tão incompreensível. O trabalho de câmara é uma lástima. Longe vão os tempos em que havia quem fizesse e filmasse cinema de ação sem ter de recorrer ao corte-corte-corte-corte à velocidade da luz, que simula velocidade, mas impede que o espectador tenha a mais pequena perceção do que se está a passar. Algo está a acontecer ali. Não sabemos bem o quê. Algo. Pancada, provavelmente. Corrijo: os tempos não vão longe, ainda há quem o faça com qualidade (há sempre quem). Dois exemplos, um no mainstream, outro fora dele: Demolidor, a série da Netflix com excelente coreografias de combate, mas melhor ainda a saga indonésia rodada por Gareth Evans de nome The Raid (recomendo muito vivamente estes últimos filmes).


“ Fosse o novo X-Men, fosse o Suicide Squad ou o novo Dia da Independência, o fim do mundo vende e está na moda. Sempre esteve.”


A dada altura algo acontece. Talvez tenha mudado o argumentista. Sabe-se lá. Há um momento, a partir de mais ou menos metade do filme, em que Bucky e Falcão estão num carro e dá-se a primeira cena de alívio cómico. Bucky pergunta a Falcão se este pode chegar o banco à frente. Falcão responde que não. Bucky chega-se para o meio do banco de trás. Entretanto, o Capitão América está aos beijos com alguém-que-eu-não-sei-quem-é-porque-não-consigo-acompanhar-a-continuidade-da-Marvel. Bucky e Falcão acenam com aprovação. Ri-me e pensei que era, finalmente, uma boa cena. Em mais de uma hora de filme. A primeira cena decente. capitao america guerra civilA partir daqui toda a catástrofe que o filme estava a ser melhora. De forma ligeira. A Marvel aproveita para introduzir um novo Homem-Aranha (com minutos de écrã, mas é de longe o melhor até agora para uma personagem que nunca teve um bom filme, apesar de ser o mais relevante herói do universo daquela editora) e recupera o Homem-Formiga com o sempre em forma Paul Rudd. Regressa também Hawkeye. Ou seja, ao espectador é dito: agora é que vai ser. Até aqui foi um aperitivo. Infelizmente o filme não melhora assim tanto. Já tinha afundado pontos demais para recuperar.

Há ainda um argumento a fazer sobre a questão da autoridade. Os bons da fita são quem se revolta. Os maus quem segue as regras. Ou é mesmo assim? Fica para outra vez. Evitem Guerra Civil a não ser que não tenham melhor para fazer numa noite de semana ou de um domingo à tarde.

Uma chamada de atenção para o facto de o premiado “A Balada de um Batráquio” de Leonor Teles estar acoplado a “Todos querem o mesmo” de Richard Linklater, em Portugal. Podendo, é ir ver.


Be first to comment