Dois homens e os seus carneiros

A história é familiar: dois irmãos só se têm um ao outro, vivem isolados ao lado um do outro, mas não se falam há décadas. Já por várias vezes ouvi relatos semelhantes, de Norte a Sul de Portugal. As razões, às vezes, nem sequer são conhecidas. Foi algo que aconteceu naquele momento, naquela circunstância, que desatou uma relação que não compete aos homens desatar.

imgO enredo de “Rams” – “Carneiros”, na tradução portuguesa – é este. Filme islandês escrito e realizado por Grímur Hákonarson com uma extensa lista de prémios e nomeações para prémios, que culminaram com a vitória na secção Un Certain Régard, no Festival de Cannes do ano passado. O Theatro Circo vai exibi-lo na segunda-feira, às 21:30.

“Carneiros” não é, como já surgiu classificado, uma “tragicomédia”. Não é um filme cómico. A narrativa dos dois irmãos avança através dos carneiros que possuem e que são obrigados a abater face a uma doença que ameaça erradicar todos os animais daquela espécie. Um dos homens é mais doce (e, como tal, é nele que o filme se centra). O outro é mais duro, agarra-se a uma garrafa com demasiada facilidade. Os carneiros afastam ainda mais os dois irmãos. Os carneiros aproximam-nos de vez, algo que é previsível desde o primeiro terço do filme.

rrrramsA previsibilidade não é uma maleita do filme, pelo contrário. Não há muito por onde possa ir e as vidas de dois homens confinados a um local tão inóspito onde tudo, menos o futuro, é seu conhecido é paralela à história do filme. Sabe-se que eles nunca farão outra coisa que não seja aquela. Vão criar carneiros. Vão cultivar o campo. Vão suportar as agruras do Inverno e esperar por uma temporada primaveril e estival favorável. As paisagens são de uma bela, mas rude Islândia. O frio é inimaginável. Há aspetos de dificuldade económica que só quem vive do campo consegue alcançar, mas que, ao mesmo tempo, transmitem a ferida aberta da crise financeira num país que atravessou uma tão árdua. Apesar disso, nunca se avista uma cidade ao longo de hora e meia de filme. Os carros que surgem circulam de forma periclitante. Há uma sensação de que algo pode acontecer a uma destas pessoas sem que o auxílio venha a ocorrer num futuro próximo. Daí a importância de se ter um irmão ao lado. Como o momento em que Kiddi, o mais duro, desmaia bêbedo na neve e é salvo por Gummi, que parece estar sempre lá para o irmão, mesmo que este não o faça de forma recíproca.

A história avança de maneira ritmada, mas ilusoriamente lenta, enquanto o estilo visual é também ele sereno até ao desenlace, que pode gerar alguma divisão nas conversas à saída da sala. A história de Kiddi e Gummi é, acima de tudo, comovente e sensível, tratada com a delicadeza necessária, sem que seja algo brilhante.


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