Em defesa de “La La Land”

Até há não muito tempo diria que fazer uma defesa de “La La Land” era desnecessário. Para quê defender algo que é o filme de Hollywood mais próximo do consenso desde que o século começou? Afinal parece que haters gonna hate mais uma vez.

Há várias razões para haver resistência ao filme, mas a principal prende-se com o rótulo de “musical” que carrega e que aparentemente é razão que baste para fazer com que o mais tranquilo cinéfilo leve a mão à pistola.

A segunda é uma crítica legítima, que se liga à vertente masturbatória dos grandes estúdios norte-americanos e do processo de raciocínio (ou falta dele) na hora das votações para prémios: um filme sobre filmes tem, regra geral, lugar cativo nos prémios.


“ É um romance com tudo no sítio certo para se tornar num clássico à melhor maneira de Hollywood”


“La La Land” é tão musical como “Pulp Fiction” é um filme de ação. Arranca com uma canção, é um facto, para tirar logo esse obstáculo do caminho: “vamos ter música neste filme e não nos envergonhamos disso”. Há pessoas que cantam em “La La Land”. Atores, sim. Um dos dois protagonistas, Ryan Gosling, já tinha uma banda antes de aqui chegar (bem boa, note-se, de nome Dead Man’s Bones), mas nem é ele quem mais canta, é mesmo Emma Stone, a voz da dupla. Apesar de haver uma excelente banda sonora com um papel muito ativo em cena, não há cantoria a cada esquina. Há alguns momentos que chegam para o rótulo de musical. Quanto baste para não afastar quem não gosta de musicais por princípio, mas se dispôs a assistir ao mais recente filme de Damien Chazelle, depois de um sólido, mas de final pífio, “Whiplash”.

la_la_land_location_stillNão estou a tentar desculpar um musical. Sabemos que os que tem havido são de qualidade incerta (sim, “Chicago”, é contigo, vira a cara para o lado, “Moulin Rouge”, que tu foste bom), mas “La La Land” não é só um bom musical. É um romance com tudo no sítio certo para se tornar num clássico à melhor maneira de Hollywood. Um romance que cresce, sobe, atinge o seu clímax e cai, cai, cai, como um balão, até rebentar. Não se compara ao final falhado de “Whiplash”. E é apenas o terceiro filme de um realizador e argumentista com pouco mais de 30 anos, que trabalha pela terceira vez com o compositor Justin Hurwitz, depois de se terem conhecido quando estudavam.


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