Aceitaria magoar alguém só porque lhe deram uma ordem?

Há largos meses em falta para com esta coluna em particular e para com a Badio em geral, venho por este meio procurar retificar o interregno, com referência a um filme que vai ser segunda-feira exibido no Theatro Circo (21:30, 3,5 euros). Falo de “Experimenter”, que tem o explicativo subtítulo de “Stanley Milgram, o psicólogo que abalou a América”. Milgram, que morreu em 1984, existiu de facto e abalou mais do que a América.

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O filme recria a experiência que tornou famoso aquele psicólogo social. Nascido e criado em 1933 em Nova Iorque, Milgram foi o segundo de três filhos de uma família judaica. A partir de 1960, antes dos 30 anos, Stanley Milgram dá início a um projeto de investigação que consiste no seguinte, de acordo com a entrada da Enciclopédia Britânica do dito: era dado a entender aos participantes que faziam parte de uma experiência sobre punição e memória, que na prática os colocava na posição de alguém que lia um enunciado a outra pessoa, numa sala ao lado fora da vista, mas audível. Sempre que essa outra pessoa (um ator) se enganava no exercício de palavras o participante tinha que pressionar um botão que descarregaria um choque elétrico. Descarregaria, mas não descarregava. Os participantes eram levados a crer que assim acontecia. E a voltagem ia aumentando à medida que o tal ator ia falhando nas respostas. À medida que os pretensos choques eram dados, a pessoa do outro lado ia gemendo, gritando. E os participantes iam ficando apreensivos sobre se o que estavam a fazer era de facto o correto. Era assim a experiência, diziam-lhes. Tem que ser. Os resultados foram títulos de jornais e causaram polémica: 65% das pessoas que tomaram parte do estudo aplicavam a voltagem máxima, mesmo sabendo que, do outro lado, a vítima dos choques já estaria desmaiada e com sérias dificuldades de saúde. A conclusão era evidente: sob ordens de “superiores”, a maioria das pessoas aceitaria levar a cabo ações que causam dano a outros. Se fora da vista, tanto melhor.

A experiência de Milgram foi feita cerca de 15 anos após o final da Segunda Guerra Mundial e a ligação ao Holocausto é imediata. É impossível não ver o filme de Michael Almereyda sem pensar nas palavras “a banalidade do mal”.

experimenter-3O filme conta a experiência da forma mais ilustrativa possível. Nem mais nem menos. Por vezes o sereno Peter Sarsgaard, que interpreta Milgram, dirige-se ao espectador. Os 100 minutos passam rápido e são pedagógicos. Quantos de nós aceitaríamos agir pelo mal, se as circunstâncias assim o ditassem? Quantos de nós sucumbem perante a burocracia? Perante o “tem que ser porque lhe estou a dizer”? Quantos de nós questionamos a autoridade? Quantos de nós vivemos com medo?

As comparações com outros tempos e outras figuras políticas dão sempre desclassificação automática a qualquer argumento. Não pretendo fazê-lo aqui porque não é necessário. A preocupação constante, em particular nos dias de hoje, é que não estejamos imunes a novos períodos autoritários em países que já os sofreram com consequências brutais e nefastas para o povo e para o futuro da sociedade.

“Experimenter”, sobre algo com mais de 50 anos, mas muito atual, vale bem a pena e incentiva a conversa. Ide ver.

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