A sala verde

Chegou na quinta-feira às salas portuguesas um dos filmes que têm marcado as listas de melhores do ano que são feitas ao longo dos 365 dias. Uma achega: como de costume, “chegou às salas portuguesas” é uma manifesta hipérbole. Não chegou às salas portuguesas. Chegou a algumas: em concreto, a Lisboa, Amadora, Porto e Gaia, de acordo com o Cinecartaz. Já por várias vezes aqui abordei este flagelo, outras tantas voltarei a fazê-lo. Apesar disto, creio ser relevante mencionar que um dos filmes do ano estreou-se em Portugal (mesmo que apenas nas duas maiores áreas urbanas).

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O filme em causa chama-se “Green Room” (aparentemente ficou por traduzir a Sala Verde) e é escrito e realizado pelo norte-americano Jeremy Saulnier tendo por protagonista o recém-falecido Anton Yelchin com um papel secundário, mas sempre importante, de Patrick Stewart.


“ “Green Room” é uma injeção de adrenalina constante.”


O nome de Saulnier apareceu no meio cinematográfico com impacto há três anos quando lançou “Blue Ruin”, um extraordinário filme de vingança seco e amargo. No trabalho que se seguiu a uma obra que lhe deu o prémio FIPRESCI em Cannes, Saulnier realiza o derradeiro filme punk: uma banda do dito género musical esquecido-mas-não-morto anda em digressão, vai parar por erro do destino a um bar neonazi, onde testemunha um homicídio e se vê obrigada a fazer tudo para sobreviver (pelo meio ainda tocam a “Nazi Punks Fuck Off” para um auditório muito pouco agradado).

green-room2Saulnier faz parte de um grupo de jovens realizadores norte-americanos que dominam em pleno as ferramentas do thriller em particular e do horror em geral e não têm qualquer receio de as usar para maximizar os estragos causados pelo filme no seu conjunto. No entanto, tudo é feito com uma grande ponderação. O filme passa-se num espaço relativamente confinado, grande parte dele dentro de um edifício. Para obter essa maximização de resultados Saulnier mostra que sabe o faz. Há uma economia de recursos para o máximo de impacto que é de notar. A facilidade com que uma lâmina corta carne humana é mais eficaz para o espectador do que qualquer explosão Michael Bayiana. O terror de ter um cão sedento de sangue a percorrer os corredores do espaço é mais pavoroso do que qualquer animal sobrenatural.

Se “Blue Ruin” deixava um gosto amargo na boca, “Green Room” é uma injeção de adrenalina constante.

Outra característica do trabalho de Saulnier até aqui é a capacidade que tem de mergulhar nas águas turvas do que é ou não é moral e agitá-las. Vale tudo para sobreviver a um bando de neonazis maléficos, certo? E por que raio não vem a polícia ajudar? Há alguma linha a partir da qual os bons se tornam iguais aos maus? O filme aponta direções, mas não empurra quem vê, na melhor tradição do género.

Talvez “Green Room” seja menos brusco do que “Blue Ruin”. Ou melhor, talvez seja o contrário: mais brusco, mais espalhafatoso e menos controlado numa entrada clara naquilo que é o meio mais próximo do mainstream com nomes menores, mas reconhecidos, no elenco. A questão preponderante é o que fará Saulnier a seguir. Mudará de género, vai manter o controlo sobre o que faz ou será cooptado para um qualquer blockbuster mundial?

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