A Força que é mais do que o Natal

Quanto mais anos passam menos sinto o Natal. A quadra. A festa. O espírito. Tudo isso junto. Por motivos vários que não pertencem aqui. O que sinto é a Força. A inevitável e incontornável Força. Como tal, este texto não podia ser sobre outra coisa que não o próximo capítulo de “A Guerra das Estrelas”, também conhecido como “O Despertar da Força” e que é na prática o primeiro volume de algo novo. Novo realizador, novas atrizes, novos atores, um novo imaginário.

Não há críticas publicadas ao filme porque ainda não foi dado a ver. Exceto a alguns privilegiados, como é George Lucas, sem necessitar de grandes explicações. O criador do universo “gostou muito” do sétimo filme da saga sem fim à vista.

Não me lembro da primeira vez que vi “A Guerra das Estrelas”. De certeza tinha menos de 10 anos. Tão pouco sei quantas vezes revi os três primeiros filmes (sinto necessidade de explicar quais são, mas não vale a pena). Não interessa. O que sei é que são três filmes unificados. Completos. Plenos. Que não custa nunca rever (exceto os ewoks, esses custa-me um bocado, embora fique sempre comovido com o momento em que se deparam com o conceito de morte violenta pela primeira vez). Ainda para mais na companhia das pessoas de quem mais gostamos. O meu pai é como eu, não se cansa de ver filmes como estes. Ou como os três Indiana Jones, por exemplo, que partilham com o mundo da Força o nome de Lawrence Kasdan, que não por acaso escreveu quer “O Império Contra-Ataca” quer “Os Salteadores da Arca Perdida”. Há pessoas com um dom. Lucas é um. Kasdan outro. Já agora, Kasdan regressa aos argumentos para “O Despertar da Força”.

No fundo, o que importa em filmes como “A Guerra das Estrelas” é essa unificação. Não só a capacidade que têm de reunir em duas ou três horas tantos temas fundamentais daquilo que significa ser humano, mas a sua habilidade de juntar adeptos diante dos ecrãs.

Como em muitos épicos da literatura e do cinema, em “A Guerra das Estrelas” o mundo é preto e branco. Há os bons e há os maus. Há os maus que se tornam bons e os bons que se tornam maus. Há o amor fraterno e o amor de paixão. O ódio e a generosidade. Cinzentos pertencem pouco a esta galáxia, mas os cinzentos são os da vida real e aqui não estamos a falar de vida real.

Há uns meses lia algures uma questão sobre com quantos anos devia uma criança ver a saga pela primeira vez. A partir da idade em que a consiga compreender. “A Guerra das Estrelas” tinha o que de melhor o cinema tem para oferecer. Todo o ritual: a expectativa, o chegar à sala com pessoas que desconheces, mas que se sentirão como tu. Os anos que passaram desde que tiveste outro momento semelhante.

Sabemos bem que há uma componente comercial em tudo isto que é inescapável. Há mais filmes para vender mais. Da mesma forma que se transformou um excelente livro chamado “O Hobbit” em três medíocres filmes, apesar de ser mais pequeno do que cada um dos três livros de “O Senhor dos Anéis”. Isto importa porque nem todos sentimos o cinema e as histórias da mesma maneira. O que significa que se o comercial toma as rédeas o emocional sofre. Vejam-se todas as heresias que foram os ‘remakes’ em Hollywood.

Com isso em mente e com toda a possibilidade de desilusão pela frente, “A Guerra das Estrelas” vem aí e é o momento cinematográfico do ano. Por tudo o que escrevi antes e mais, hoje sinto mais a antecipação pelo minuto em que me vou sentar na sala de cinema para ver o filme do que sinto pelo Natal. Em parte, porque o Natal é quando um homem ou uma mulher quer, certo? “A Guerra das Estrelas” não.


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