A comédia de parceiros também pode ser boa

Shane Black definiu aquilo que se costuma designar como o “filme de parceiros” quando, na década de 1980, assinou o argumento do primeiro “Arma Mortífera” (e a história do segundo), comédia notável daqueles tempos que deu Mel Gibson ao mundo na sua parceria com Danny Glover. Com um ritmo de trabalho algo intermitente, com longos períodos de desaparecimento dos créditos do cinema, Shane Black reapareceu, já este século, para realizar o seu primeiro filme (“Kiss Kiss Bang Bang”), com argumento também da sua autoria. O filme, de 2005, passou mais ou menos despercebido do público (faturou 4,2 milhões de dólares nos EUA para um orçamento de 15 milhões), embora não da crítica, sendo hoje parte recorrente das programações dos canais de cinema do cabo (vejam se ainda não o fizeram). Para além de ser um excelente filme, teve o mérito de dar uma nova a vida à então moribunda carreira de Robert Downey Jr. e de tentar igual façanha com Val Kilmer, o que correu menos bem do que com o vindouro Homem de Ferro.

“Bons rapazes” não é um filme perfeito, está distante disso, mas é uma comédia com alma e erudição.

nice-guys-movie“Kiss Kiss Bang Bang” não só é um excelente filme como pode ser um primeiro esforço do que viria a ser aperfeiçoado para “Bons rapazes”, que se estreou na quinta-feira nas salas portuguesas e que mostra várias coisas de uma só assentada: que a comédia é um género que teima em não morrer, que o noir é um género que também se recusa a desaparecer (e ainda bem para ambos os casos) e que o “filme de parceiros” pode ser mais do que a idiotice pegada do modelo que coloca de um lado um polícia sério e forte e, do outro, um polícia/vilão-tornado-bom franzino cujo objetivo é providenciar alívio cómico a cada esquina do argumento. Não por acaso as salas de cinema comerciais estão em permanência cheias de filmes deste tipo, uma elevada percentagem dos quais com o nome de Kevin Hart no cartaz. Todos eles facilmente desaparecidos da memória coletiva, porque a seguir vem outro e não convém que o público se lembre que há meses viu igual.

bons rapazes 2“Bons rapazes”, com o sempre excelente Ryan Gosling em parceria com um menos-excelente Russel Crowe que tem aqui, apesar de tudo, o seu melhor desempenho em anos, é uma comédia em jeito de noir clássico (rapariga desaparece, detetive procura-a, gente morre pelo caminho) redesenhado para o contemporâneo. Já se leu esta descrição antes. Em pelo menos duas ocasiões e ambas tremendas: “O grande Lebowski”, dos irmãos Coen, e “Vício inerente”, de Paul Thomas Anderson. Droga, álcool, pancada, está tudo lá. “Bons rapazes” é a comédia mais declarada das três e não podia ser de outra maneira, tendo em conta Shane Black e aquilo que o move. O argumento bombardeia o espectador com humor, de forma mais ou menos clara. A tal ponto que as legendas portuguesas não conseguem acompanhar o nível e o ritmo. A narrativa é linear, mas contorce-se em determinados momentos (Detroit?) naquilo que é uma metáfora para a sociedade capitalista dos tempos modernos e das ligações entre os vilões clássicos que partilham um elemento: o poder, aqui representado por Kim Basinger, que partilhou tempo de filme com Crowe noutro noir, mas sem a comédia: o extraordinário “L.A. Confidencial”. Os personagens de Gosling e Crowe são quem põe em causa esse poder, na corda bamba entre a busca por dinheiro (Gosling) e o tentar ser boa pessoa (Crowe). De salientar a presença dos atores menores: Angourie Rice é um espetáculo e a consciência do filme (ou não fosse uma criança) e Lance Butler (o miúdo na bicicleta), que proporciona dos maiores momentos de gargalhadas do filme.

“Bons rapazes” não é um filme perfeito, está distante disso, mas é uma comédia com alma e erudição, que é mais do que se consegue dizer acerca de 99% do género na atualidade.

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