Escutando-te…

percebo que serás a única maneira de salvar o mundo.

 

É incrível o bombardeamento de que somos alvo enquanto humanos, das balas propriamente ditas aos cabeçalhos dos jornais.

Os blocos noticiários são ocupados por climas de tensão de guerra com imagens chocantes, debates políticos que leva o maior desinteressado em política a transformar-se numa pilha de nervos furiosa capaz de disparar em todas as direcções, invasões na vida íntima das pessoas, ofensas, calúnias e difamações, processos judiciais com e sem nexo ou valor, descalabros financeiros e miséria.

O próprio entretenimento se tornou numa análise depurada e infinitamente pormenorizada das maiores tragédias que acontecem diariamente. Relatos horríveis e aterradores enchem horas de televisão generalista, com os intervenientes mais próximos a revelar tudo o que mais de obscuro habita na sua vizinhança ou mesmo na sua família. Enquanto isso, uma população deprime agarrada às cadeiras assistindo ao freak show que parece impossível ter acontecido mesmo na porta ao lado. A acompanhar, temos futilidade em crescimento exponencial vangloriando famosos de plástico sem nada para dizer, nem para acrescentar.

TV-KidsQuem seremos nós se continuarmos aqui sentados a assistir somente a isto, sem filtro, sem equilíbrio? Que pessoa será o meu filho se o deixar assistir a tudo isto?

Desligo a televisão. Não leio mais os jornais nem sequer atiro o olhar para as revistas as portas dos quiosques. Deprimem-me ao acordar porque me deixam triste e fazem-me sentir impotente porque não sei o que o na minha insignificância poderei fazer para tentar remediar um milésimo deste ambiente de trevas, de vazio! A juntar a tudo isto, não sinto uma união geral das pessoas numa entreajuda universal, àquele que nos está próximo, uma vontade de sermos amigos só porque sim, uma vontade de comedirmos qualquer ostentação e de fazermos com que o mais pequeno gesto nos dê mil vezes mais prazer do que comprarmos qualquer bem material! Não sinto uma vontade de construção e criação genuína de índole social, artística ou puramente recreativa. O dinheiro, sempre o dinheiro…


“a música será a única forma de salvação.”


Deve ser por causa de tudo isto que trago comigo há muito tempo uma ideia platónica: instalar dispositivos sonoros por todos os cantos do mundo com excepção das zonas de natureza virgem e florestas protegidas, pois já têm a sua expansão sonora, e reproduzir música criteriosamente seleccionada para acalmar qualquer ânimo mais instintivo, que apelasse ao que trazemos dentro e nos fizesse pensar no verdadeiro motivo de qualquer acto mais desumano ou imoral. Que nos fizesse pensar realmente no que importante, se não valerá muito mais um simples abraço do que uma mala de notas, uma crença ou um discurso fanático.

Tenho a esperança de que se houvesse essa banda sonora espalhada por todo o mundo as armas iam cair ao chão, os corpos iam ceder, o dinheiro seria esquecido e correríamos para o lado dos que gostamos como se fosse a última vez, nem que essa fosse a primeira.

Que inspirasse os povos na construção, na convivência harmoniosa, preservação e evolução da cultura de onde nascemos, a fazer coisas bonitas. Que sonho seria acordar…

É por isso que digo que a música será a única forma de salvação. Não sou eu o primeiro a dizê-lo, mas esta ideia de colunas por toda a parte é minha e é bem capaz de sair mais barata do que os montantes que se transacionam em armamento, droga e corrupção. Ó Mundo, é uma questão de escolha e estou a dar-te a ideia! De graça!

Enquanto isto não acontece e não puder contribuir para mudar algo na humanidade, espero pelo menos ajudar uma ou outra pessoa que leia estas linhas rápidas a reflectir por dois minutos, a pensar no que nós somos e a tentar ainda hoje alterar qualquer coisa para melhor, fazer alguém mais feliz, iniciar um projecto novo, servindo-se à vontade de uma excelente banda sonora. Agora.

 

Escrito ao som de: Ólafur Arnalds

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