Palavras do passado para memória futura

Há momentos em que o rumo das nossas tarefas nos levam a uma reflexão, sobre o tão pouco que achamos sempre que já fizemos e o tanto que temos a certeza que há ainda a fazer.

Entre os prazos e os tecnicismos da lei, um advogado numa deve perder de vista tudo o que de humano possui, numa espécie de azimute no desnorte com que tantas e tantas vezes se vê defrontado, e nessa libertação, ainda que momentânea, de pensamentos, me veio à memória palavras já pensadas e já escritas, com a linhe de um comboio como guia, e que voltaram a reafirmar a crença na coragem, no esforço e na humildade.

Entendi por bem partilhá-las agora…permitir que vejam para lá de uma toga, para lá de um mundo espartilhado, e que vejam o mundo como o vi em tempos (e que luto para que sempre se mantenha):

 

“O rumo da vida profissional impôs-te que te aventurasses na cidade grande, grande em espaço e em imensidão de pessoas e hábitos desconhecidos que tens pela frente. No início as estadias são fugazes, as tarefas a desempenhar ainda pequenas. Regressas a casa sabendo que tens de voltar na semana seguinte, e na próxima, e na próxima…

Nessa primeira viagem de regresso, por obra do acaso, ou, dito de forma mais exata, obra da vida querendo mostrar-te o caminho mais acertado, lembras-te das palavras recentes de alguém próximo: “podes andar sozinha por esse mundo fora que, se fores de coração aberto e alegre, esse mundo irá receber-te da mesma forma”. E assim fiz! As semanas foram passando e o olhar concentrado somente na tarefa a desempenhar foi sendo misturado com um olhar doce sobre a paisagem, as pessoas. E o “boa noite” coloquial na chegada ao hotel foi sendo substituído por um “olá, boa noite” acompanhado de um sorriso rasgado de quem te recebe. E ao caminhares na rua vais encontrando caras que te vão sendo familiares. Não sabes o nome, nem o quem fazem, mas estão ali. Olham-te e esboçam um leve sorriso a cada passagem em que se cruzam. E as pessoas com que trabalhas deixam de ser simples colegas e passam a ser amigos. O aperto de mão é substituído por um abraço. E deixas de te deslocar semanalmente para trabalhar e passas aí também a “viver”, a estar com amigos, a estar em lugares que passam também a ser teus”.

 


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