Liberdade de nos libertarmos do medo

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

    Assim se pode ler na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas há precisamente setenta anos, resultante de uma necessidade premente de prover a um cenário futuro de proteção, por forma a impedir a ocorrência das atrocidades vividas durante a Segunda Guerra Mundial, bem como de estabelecer que, sem liberdade, igualdade e fraternidade, cairemos sempre num buraco cavado por nós próprios.

     Contudo, falar de direitos humanos é recuar mais ainda na história da Humanidade, mais concretamente a 539 a.C. onde, após a conquista da Babilónia, o rei Ciro, num cilindro de argila, declarava já direitos inerentes ao ser humano, como a liberdade de religião e a abolição da escravatura. Surge, assim, o Cilindro de Ciro como primeiro documento onde se vinculam direitos humanos.

     Tal como o planeta Terra, um cilindro não tem esquinas ou ângulos, representativo de igualdade de todos os seus pontos.

     Contudo, a nossa história nos foi mostrando imensas pontas aguçadas e esquinas inesperadas que, a par de muitos avanços verificados, falta ainda percorrer um longo caminho e que, a escada que é a evolução da vida, tem sido subida e descida a um ritmo alucinante e, não raras vezes, atabalhoada. Basta olharmos diariamente à nossa volta. É gritante a falência do sentimento de paz dos cidadãos, na rua, em casa, no seu local de trabalho, numa cultura do medo que vai atravessando as fronteiras de todos os países.

     Depois de há setenta anos vermos descritos num documento os “direitos humanos”, impõe-se a luta diária pelo pleno direito humano à paz, a ser livre de viver sem medo.

     Como escreveu Alexandre O’Neill, “rebanho pelo medo perseguido/já vivemos tão juntos e tão sós/ que da vida perdemos o sentido”, a vida perde sentido quando somos perseguidos pelo medo e apenas seremos humanos de plenos direitos quando nos sentirmos vivos e não sobreviventes.


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