E se pensarmos em pensar?

Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida fácil, mas temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida perigosa, pois só com uma vida difícil, rigorosa e perigosa, dá o homem o melhor de si próprio. É necessário obrigá-lo a saltar obstáculos”. Assim o disse Agostinho da Silva, numa ode ao inconformismo e à mecanização de pensamentos.

Num mundo agitado, da ditadura de horários, prazos e compromissos, o questionamento e a reflexão foram empurrados para uma espécie de gaveta do fundo de uma cómoda, que raramente abrimos, e, nesse momento, nos deparamos com um marasmo mental de seres que apenas põe as suas capacidades em prol de uma tarefa, normalmente o trabalho.

Numa espécie de “teste” a esta nova (e errada, a meu ver) forma de estar na vida, questionei, no seio de conversas triviais, sobre valores que para mim são essenciais. “O que significa para ti a dignidade humana?”, questionei. Do lado de lá um ar surpreso, quase de mãos no ar como se estivesse eu ali a cometer algum atentado. Quantos de vós já se questionaram sobre isto ou algo semelhante? Quantos de vós, seja qual for a atividade que exercem, refletem sobre cada assunto para além do “manual de instruções”? Que tentam de forma profunda pensar os problemas para além das fronteiras nacionais, sentindo-os como se ocorressem mesmo ao nosso lado? Deixem de pensar que a extrema pobreza do outro lado do mundo é problema deles lá daquele lado. Que o furacão é só problema das gentes do Haiti ou dos Estados Unidos. Que um conflito em outro continente tem de ficar do lado de lá do oceano.

Enquanto os acontecimentos, as (des)evoluções ou do mundo não nos assustarem, passar-nos-ão ao lado e a evolução do Homem estagna. O andar apenas nos membros inferiores e as costas direitas que passamos a ter não se pode ficar apenas por aí. Esse ergue do nosso corpo nos colocou o pensamento no topo da pirâmide como que a indicar-nos o ser humano, para o qual procuramos perfeição, nos dá já a indicação do caminho a seguir, o caminho do pensamento, questionador e livre. Acima dele só mesmo o céu. De cabeça para baixo não conseguimos deslocarmo-nos muitos metros, pois não?


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