“Verso invisível” revela às crianças o mundo da poesia

Por vezes, existem momentos em que se diz tanto sem muito dizer. Por vezes, a felicidade está em pequenos recantos. Momentos mágicos que se vivem por bondade de um livro e dos seus versos. Existem dias que são fáceis de se viver. Acordamos e adormecemos na esperança que o mundo gire sempre em volta das pequenas coisas que nos fazem sorrir. Sonhar. A poesia tem o dom de limpar e arrumar tudo o que nos incomoda. Os seus versos entram de rompante como se de uns salvadores se tratassem, não pedem licença. Nem devem. A poesia deveria entrar sem sequer precisar ser anunciada. Lava-nos a alma. Limpa-nos a tralha acumulada e coloca-nos onde sempre deveríamos estar. No centro da nossa própria vida…

O “Verso Invisível” é o nome escolhido por estes artistas que se inspiraram na vasta obra do escritor bracarense Vergílio Alberto Vieira e onde a poesia saiu do livro e subiu ao palco. O espectáculo infantojuvenil inserido no programa “Poesia ao Centro” foi magicamente pensado por gente que vive  a poesia e o teatro de uma maneira apaixonante.

Como surge este desafio de se juntarem neste projecto que está inserido no programa “Poesia ao Centro “?

Há já algum tempo que pensamos em criar um produto direccionado à poesia aqui em Braga, entretanto surgiu um desafio por parte da Câmara Municipal de Braga que nos propuseram a criação de algo ligado à poesia, e os Sons da Suévia juntaram-se aos Três Irmãos e surge então este projeto.

Como foi feita a selecção e porquê o escritor Bracarense?

Tivemos sempre o objectivo de promover e valorizar a literatura que é feita aqui na cidade e os seus autores, e descobrimos o Vergílio Alberto Vieira enquanto fazíamos a busca por poetas bracarenses. Este autor surgiu como uma solução espectacular para o nosso projecto porque só em livros infantojuvenis ele tem já mais de 30, portanto tínhamos um universo riquíssimo de poesia desse género para explorar.

Qual a importância pedagógica deste tipo de iniciativas para as crianças e jovens da cidade?

O descomplicar da poesia, usando as artes num espetáculo multimédia, onde a música, o desenho, a projeção a pintura e o teatro funcionam como um único produto multimédia.

Braga vai apresentar em maio a candidatura oficial à Capital Unesco das cidades criativas na categoria Media Arts. É este o futuro? Poderá este futuro acabar com a verdadeira essência, neste caso do teatro?

É evidente que há uma evolução e todas as artes têm barreira que são quebradas e que são levantadas para serem derrubadas novamente. Acreditamos que nesta era da tecnologia sejam indispensáveis utilizar a mesma em qualquer espectáculo, até para conseguirmos chegar ao maior numero de pessoas possível. Neste caso especifico a junção destas artes é exactamente com o sentido de nos ligarmos também esta geração mais nova, este público infantojuvenil que nós queremos tocar com a poesia, portanto era imprescindível na era da tecnologia, na era deles, termos algo tecnológico. Uma evolução natural das coisas, embora acreditemos que as artes performativas vão continuar mesmo estando a passar por esta revolução tecnológica, que acredito que nos vai trazer ainda mais ferramentas e mudar a nossa forma de trabalhar, e cabe-nos a nós, que trabalhamos nesta área usar tudo isso como beneficio.

Houve um grande trabalho por detrás deste belíssimo espetáculo. A ilustração é uma arte também aqui desenvolvida, como foi feita esta articulação com a performance teatral?

Achei muito interessante quando me convidaram, a situação de estar a desenhar poemas para crianças é uma boa motivação e constitui um desafio. Tentei criar o máximo de figuras o mais infantis possível, obviamente que sempre que imaginava uma figura ia falando com a equipa para perceber se se integrava. É importante que esses mesmos desenhos sejam pontos fulcrais durante a declamação do poema juntamente com a que a música que o acompanha.

Os arranjos musicais também são elementos chave nesta peça. Como foi pensado todo este processo?

Foi dado um passo de cada vez, a procura do poema,  da dramaturgia, essencialmente esta que é baseada no poema de Vergílio Alberto Vieira. A partir daí começamos a desenvolver e a dar-lhe o nosso cunho, a nossa musicalidade, procurando instrumentos e sonoridades que fomos criando em todos os ensaios. É todo um bolo que fomos cozinhando e misturando todos estes ingredientes para no fim apresentar este produto.

Quantos crianças já passaram aqui pelo Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho para assistirem a esta peça?

Nós já vamos na oitava sessão, por isso oito turmas com uma média de vinte, trinta crianças cada uma já puderam assistir a esta peça. Nós temos alguma limitação de público infantil devido ao atelier de poesia que se passa depois do espetáculo por isso só conseguimos receber este número de crianças a cada sessão. Esta segunda parte da performance é também muito importante, as crianças podem explorar o universo poético do Vergílio Alberto Vieira bem como as primeiras experiências poéticas. A rima, a construção de versos, a componente da ilustração e queremos que isso seja importante e pedagógico para todos os que por aqui passam.

Este é um projecto para manter?
É o próximo passo, é a partir de agora em que o produto está finalmente pronto, e no qual estivemos este último mês a trabalhar em cenários e em tudo o que envolve esta peça que ansiamos novas propostas e desafios das várias entidades e espaços.

Qual a importância da poesia para a vida das crianças?

Alguns de nós descobrimos a poesia muito tarde, numa fase do secundário e tive pena que tivesse acontecido assim. É importante tocar as crianças com esta temática ao longo da infância, numa altura em que eles ainda sabem brincar. A poesia infantojuvenil tem esta capacidade de fazer sonhar, a liberdade do verso, da rima dessa expressão escrita leva-nos muitas vezes a outra realidade e isso é muito característico nas crianças, o sonhar, o imaginar, mesmo que as coisas sejam muito feias elas vêem-nas muito bonitas. A poesia tem esse cunho, em especial esta de Vergílio Alberto Vieira, onde ele, com as pequenas coisinhas que tem na sua vida consegue escrever poemas muito divertidos, muito lúdicos. Mas a poesia é importante para toda a gente, não só para crianças, tanto a poesia que é escrita como a poesia da vida. No fundo o que é importante é nunca deixar de sonhar!

 

Criação Colectiva: Sons da Suévia e Três Irmãos

Dramaturgia: Dinis Binnema

Cenografia: Sons da Suévia

Música: Sons da Suévia

Ilustrações: Miguel Carneiro

Figurinos: Dinis Binnema

Atelier de poesia infantil: Sons da Suévia

Elenco: Dinis Binnema, Miguel Carneiro, Luís Veloso, Pedro Silva, Sérgio Cerdeira, Andreia Ribeiro e João Costa

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