The Gift: Um astro incandescente na Noite Branca


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No universo musical há estrelas que brilham mais do que outras. Nesta galáxia feita de sons e luz existe um corpo celeste onde todos anseiam um dia gravitar. Esse astro dá pelo nome de Brian Eno. O produtor musical britânico tem um estatuto de semi-deus cujo toque de Midas transforma em ouro tudo aquilo que toca, impulsionando qualquer banda numa órbita de ascensão meteórica rumo ao sucesso. Pela sua mão passaram nomes como David Bowie, U2, James e Coldplay, entre muitos outros, catapultados para os top de vendas após a sua intervenção divina. brian enoNa agenda de Brian constam apenas aqueles capazes de reunir um estatuto de excelência e ser simultaneamente um desafio para o produtor. A escolha é criteriosa mas, para os que conseguem entrar nesta elite a experiência daí resultante transforma indelevelmente a sonoridade e prestígio da banda.
Quem esteve  na Praça do município no passado sábado teve a sorte de assistir a dos momentos mais intensos e vibrantes da Noite Branca. Os Gift, recentemente abençoados pela intervenção de Brian na produção do álbum a lançar em 2017, demonstraram, com a naturalidade e alegria de quem faz aquilo que gosta, as razões dum sucesso cimentado em 20 anos de estrada. Talento, resiliência, humildade e inteligência ao serviço da modernidade foram os ingredientes necessários para manter a velocidade e o rumo nesta frenética odisseia. Com Nuno Gonçalves ao leme da máquina do tempo, subimos a bordo numa viagem ao passado e futuro da banda de Alcobaça.

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A última vez que estiveram em Braga foi há dois anos, numa noite memorável no Theatro Circo. Hoje estiveram na praça do município, com milhares de pessoas. São experiências completamente diferentes…

Sem dúvida! Uma vive da intimidade, outra da explosividade. Estamos bem nos dois habitats. A recepção nesta cidade é sempre excelente!

Dá-vos mais gozo ter fãs que seguem a banda há 20 anos ou ter a capacidade de recrutar novos fãs com os temas mais recentes? Há sempre esse desejo de ver uma faixa etária mais jovem no público? Ou interessa é que a casa esteja cheia?

O que não daria gozo era fazermos música para crianças e virem os adultos. Se as gerações mais jovens aparecem é sinal que estamos a fazer um bom trabalho. Em primeiro lugar porque ao contrário do que se diz, nada está perdido e elas ouvem boa música; em segundo lugar isso é sinal que há futuro nos Gift. Sempre dissemos que uma banda com 20 anos não se faz sem cimentar públicos, sem acompanhar o crescimento desse público e sem perder a capacidade de o surpreender.

the gift noite branca 07Na retrospectiva inevitável de quem atinge esta difícil marca de duas décadas podemos afirmar que foi o inconformismo e a persistência o grande motor da vossa longevidade? (há uma estética musical que se manteve quase inalterada e que o público identifica como sendo vossa, mas saíram com frequência da vossa rota para desvios mais ou menos melódicos ou electrónicos)

Sair da zona de conforto é fundamental. Sempre nos pusemos à prova. Mesmo com as canções mais antigas tentamos sempre dar-lhes uma roupagem nova. Aquilo que assistimos aqui é um concerto de êxitos e comunhão com o público, onde por várias vezes as pessoas cantam connosco vários temas, ou seja, de algum modo os Gift fazem já parte da vida das pessoas e isso é muito interessante.

Hoje os Gift gozam de uma condição privilegiada no panorama musical e contam com uma uma estrutura de apoio que assegura toda a promoção, produção e logística inerentes aos espectáculos que realizam dentro e fora do país. Como foi, no início de carreira ter que arregaçar as mangas a tratar de tudo, para além da música? Ainda controlam alguns desses processos ou  delegaram essa responsabilidade para outros?

No início foi como qualquer outra banda em início de carreira. A diferença é que hoje, se uma banda nova quer começar a mostrar o seu trabalho dispõe de dezenas de plataformas online para se divulgar. Nós, para o fazer, tivemos que gravar uma cassete, levá-la até às rádios, tentar que a passassem as nossas músicas, tentar também com os teatros para conseguir agendar concertos…era tudo mais difícil, mas, se não fosse assim, provavelmente não tínhamos chegado até aqui. Foi provavelmente esse início mais batalhador que fez de nós aquilo que somos na actualidade.

the gift noite branca 06De qualquer modo, na altura em que já dispunham uma situação mais confortável, optaram por um caminho mais independente, algo inovador para a altura…

Fomos obrigados a isso. Bandas “do-it-yourself” em Portugal há muitas, mas com a dimensão da nossa não há mais nenhuma. Fico um pouco triste por não ter havido mais ninguém a seguir este caminho. Nós gerimos tudo. Não temos editora, nem manager, nem agência. Sempre achamos que pela nossa iniciativa, surgiriam outras bandas a fazer o mesmo mas infelizmente isso não aconteceu.

O momento zero da banda acontece em Alcobaça quando se juntaram na preparação para o concurso do Bar Ben.  O que podemos dizer que aconteceu ali? Sorte? Destino? Um alinhamento planetário daqueles que só acontece a cada 100 anos?…

(risos) Eu não trocava esse período em Alcobaça por nada deste mundo! Nessa altura assistia-se a um florescer de cultura, de gente a querer fazer coisas, mesmo com poucos meios. Tal como acontece noutras cidades donde nasceram muitas bandas como Bristol, ali havia essa vontade e energia, contra todas as contrariedades. Lembro-me num dos primeiros concertos um fotógrafo que ainda usava slides, um outro amigo que nos fazia uns vídeos… Desde cedo sempre fomos muito ambiciosos e o nosso objectivo sempre foi trabalhar. Houve um momento chave em que a Sónia, após várias semanas perde o medo e a vergonha, ganha confiança e começa realmente a cantar. Olhei para o Braga, para o Miguel e pensei ”sim, está acontecer aqui um alinhamento planetário!” Ainda me arrepio quando recordo esse dia, em Agosto de 1994.

the gift noite branca 01Chegados aqui, entre prémios da MTV, Globos de Ouros e milhares de discos vendidos, há algum recado que queiram mandar para a professora do conservatório que disse que Sónia não podia entrar porque tinha voz de homem ou à editora que vos recusou por cantarem em inglês?

(risos) Ter havido uma professora que recusou a Sónia no conservatório e todos os outros entraves que surgiram não podem ser vistos como problemas, mas antes como oportunidades. Quando nos surge uma barreira à frente a resposta deve ser “como é que a vou ultrapassar?” e não um lamento por ter surgido.  Saltar essa barreira dá-nos mais força e não tenho dúvidas que hoje a Sónia é muito melhor vocalista do que se tivesse sido aceite no conservatório nesse dia.


Há uma grande expectativa em relação ao novo trabalho que sairá em 2017. É possível levantarem um pouco o véu sobre o que podemos esperar?

Este é o melhor disco dos Gift de sempre, um sonho tornado realidade.  Lembro-me de, em 94 estarmos no sótão do Miguel e descermos todos para ouvir em vinil o Achtung Baby, dos U2, produzido pelo Brian Eno. Extasiado com o que ouvi, comentei na altura que ele era brilhante, que aquele som era algo completamente novo e diferente de tudo o que se fazia. Se o Miguel me tivesse dito na altura “não te preocupes que daqui a 20 anos vamos trabalhar com ele” eu só podia concluir que ele tinha bebido ou fumado alguma coisa!

Mas confirmou-se!

the gift noite branca 08Sim, e isso é sem dúvida a grande vitória dos Gift. Mais do que o resultado do trabalho, foi o processo em si que nos levou até ele. Conseguimos ter seis sessões de doze dias com ele, sessões de trabalho intensivo que nos permitiu abrir um universo inexplicável. Há uma célebre entrevista ao David Bowie em que lhe perguntam se ele tem noção que é a maior influência da pop mundial. Ele responde “se me faz essa pergunta a mim é porque não conhece o Brian Eno.” Ele é, de facto, um iluminado. Aconteça o que acontecer com o disco, a nossa grande vitória é essa e isso já ninguém nos tira.

É um trabalho que vai ter certamente incursões fora da rota habitual dos Gift…

A propósito da saída da zona de conforto de que falavas há pouco posso-te contar este episódio: Ao final do oitavo dia da primeira sessão estávamos a fazer uma música inspirada nas guitarras do Mali porque o Brian tinha feito uma viagem lá. Depois disso, ao almoço reparamos que ele estava todo excitado e perguntamos-lhe porquê. Sorridente, respondeu: “pela primeira vez, os Gift não soam a Gift!”. Isso já responde à tua pergunta. O disco vai ser lançado em 2017 mas vamos ter novidades antes. Fiquem atentos!


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