Stephan Mathieu reinventa 30 anos de Mão Morta

Os Mão Morta inventaram o seu próprio espaço no panorama da música portuguesa e são aquilo a que, justamente, se chama uma instituição. 30 anos de carreira dão-lhes esse alcance e uma discografia recheada de momentos de ruptura, partindo do rock e da electricidade para um estudo sobre a natureza humana, adoptando perspectivas filosóficas e políticas pouco exploradas no lado mais eléctrico da nossa música popular, mesmo o mais abrasivo, confere-lhes uma nobre singularidade. Estes artistas bracarenses souberam também encher esse dilatado espaço temporal com dezena e meia de obras originais, cortantes, densas e intensas, que entre o estúdio e o registo de palco lhes garantiram um lastro sério e monolítico.

stephan-mathieu-gnrationÉ esse acervo que Stephan Mathieu encara como ponto de partida para uma revisão que resultará de uma residência artística no GNRation e terá consequência directa num espectáculo a realizar no incrível Mosteiro de Tibães. O percurso artístico de Stephan Mathieu traduz uma procura contínua através da mais desafiante eletrónica. Este músico alemão colaborou com um verdadeiro quem é quem do universo mais experimental da música, de Akira Rabelais a Robert Hampson dos Main, de Sylvain Chaveau a David Sylvian. Mathieu, entretanto, tem feito da abordagem a obras de outros compositores, ponto de partida para exercícios de pura exploração eletrónica. Fez isso com gigantes da modernidade erudita como Alvin Lucier, Phil Niblock ou Charlemagne Palestine, mas também com exploradores das margens mais remotas da pop como Holger Czukay ou David Sylvian, dupla de quem reinterpretou o clássico Plight And Premonition. Wandermude foi outro momento de interação com a obra de Sylvian, artista com que de resto tem colaborado frequentemente.

É com essa bagagem que Stephan Mathieu chega a Braga: uma bagagem de experimentação, de derrube de fronteiras entre linguagens, de construção de um novo discurso eletrónico a partir de fontes digitais e analógicas. Desta vez, no entanto, é a obra eléctrica e negra dos Mão Morta que é alvo do mergulho de Mathieu e de uma reinterpretação que naturalmente se espera original, oferecendo uma diferente perspectiva para música que há três décadas nos assombra a imaginação.

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