Quando Deus estende a mão em forma de gente

Há dias em que parece que Fevereiro está fora de si, descontrolado e zangado. O mar que galga as margens, o vento, com raiva que nos grita aos ouvidos com medo que nos esqueçamos que ele existe. As noites, essas, tem sido escuras, sem sequer pensarmos espreitar pelas janelas porque a lua não aparece, o céu azul perdeu-se para o negro das escuras nuvens que foram nossa companhia enquanto corríamos para mais um dia igual aos outros. Fevereiro parece que nos pôs à prova.

Este mês pequenino antes mesmo de terminar trouxe uma história, trouxe sol e esperança quando ele aterrou. O nosso exército baixou as armas e quis ouvir, como se finalmente percebesse que não são as nuvens negras e o mar revoltado de mãos dadas com o vento que nos dominam.

Para ele, o agora contador de histórias este será o Fevereiro mais bonito dos seus 24 Fevereiros no seu calendário interior. Gonçalo Delgado arriscou, decidiu andar sobre o fio da navalha, enfrentar o maior dos medos do ser humano. Gerir sentimentos, perceber o que porquê e responder através da fotografia.

gonçalo delgado

Esteve no campo de refugiados “Better days for Moria” a 20 km de Mytilini em Lesvos, chegou às respostas certas depois de muitas respostas falsas. Nunca chegou à fotografia perfeita, porque essa, tirou-a com a alma e jamais conseguirá imprimi-la para que todos possam ver.

Na sua retina não ficou apenas dor e sofrimento. Conheceu gente para quem a palavra falhar vem com atrelado. Falhar melhor. Estas duas palavras só são entregues a gente que não desiste, que não atira a toalha ao chão, pessoas para quem o jogo só termina quando a vida terminar. Aquelas vidas, perdidas, entregues ao mar, ao pó, à espera de um abraço de 25 segundos. Aquelas vidas, como a nossa, da mesma carne, do mesmo sangue mas que caminham em areias movediças. Olhares que todos os dias vão a jogo. Com ou sem forças, com ou sem pão no estômago colado ás costas, não de fome mas de saudade e de medo.

Que raio de regras são estas que tendem a cair sempre para o lado dos mais fortes, dos que não dividem o pão e o barco de borracha. Que náuseas traz à alma esse balançar desse barco, nesse mar que nós achamos ser cruel connosco por nos arrastar uma árvore do jardim no mês mais pequeno do ano.

gonçalo delgado

Para o fotógrafo Bracarense é tudo muito claro, a máquina tinha que descansar, o amor pelo ser humano era mais forte. A lente focava os olhares, os corpos enregelados, a mesma lente que o levou para lá mostrava-lhe que os corpos funcionavam. Os braços e as pernas ainda estavam onde deveriam estar. A roupa estava encharcada mas tapava-lhes a pele arrepiada. E o mar. O mar tinha acalmado. Não era hora de carregar no botão. Este Fevereiro, que é o mesmo em todo o mundo trouxe-lhe a noção, a par do negro do céu em Portugal e o brilho nos olhos dos refugiados na Grécia que o cheiro do mar é igual, traga ele barcos com almas perdidas ou ondas que arrastam sonhos.

foto 2

“Por incrível que pareça foi difícil começar a fotografar, porque estando à frente daquelas situações tive que respirar bem fundo. O mais doloroso foi ver dezenas de crianças em hipotermia a chegarem em botes de borracha completamente cheios com 50 pessoas. Estamos a falar de seres humanos, o momento mais importante deixa de ser fotografar, foi deixar as camaras para trás e ajudar as crianças a sentirem no corpo roupas quentes e secas”.

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Um voluntário, um fotógrafo, um amigo, um rapaz que nem fala a sua língua mas que está ali. Que deixa para trás a sua máquina e que lhes devolve por minutos a certeza de que há gente com braços quentes e fortes dispostos a abraçar os seus filhos. Raios, esta vida tem maneiras estranhas de nos mostrar de que matéria somos feitos. Arrastou-o assim por caminhos, junto a uma costa que tem trazido gente que carrega nos olhos mais sal do que água salgada que embala os seus barcos.

Ali, a 4000 quilómetros de casa custou-lhe respirar o mundo, parece que o movimento involuntário que fazemos milhares de vezes por dia e nos mantém vivos se torna-se numa batalha que ele não conseguia vencer. Estava a perder. Custava respirar fundo e estava a ficar sem forças. Ficou furioso por apenas ter dois braços para ajudar. Mais uma vez em minoria. A vida e as suas provas.

gonçalo delgado

Mas o mundo que achara tão cruel, a natureza que ele não entendia foi a mesma que os entregou sãos e salvos, frios, com fome mas com esperança e com vontade de agarrar os braços que se multiplicavam a cada passo que davam na areia fria. A energia e o olhar rejuvenescem. Talvez o Gonçalo nunca consiga explicar como isso acontece, mas a verdade é que acaba por acontecer. E é aí, que tudo parece uma pequena grande vitória. Acaba-se o terror de serem engolidos pelas águas geladas do Egeu , o nevoeiro desaparece e voltam a sentir o cheiro da vida. Para o rapaz que teve medo de não conseguir conter as lágrimas o resumo é simples “ Fiquei marcado como profissional e como pessoa. A educação e a felicidade das pessoas que estão num campo de refugiados é real. Ao contrário do que possam pensar é um local cheio de esperança, todos, sem exceção te agradecem o facto de lá estares. Nunca te sentes um “forasteiro”, sentes que fazes parte daquilo e de uma grande “família” que se reuniu ali em busca de condições melhores. São pessoas boas para quem o desespero e o instinto de sobrevivência ditaram mais alto. Tenho também que realçar o trabalho dos voluntários que é incrível, sente-se uma sinergia enorme entre toda a gente, o que facilita imenso o nosso trabalho de fotógrafos”.

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Agora ali, depois do descanso, dos pesadelos que a noite lhe trouxera, o sol queimava as peles agora em terra, o mar imenso desaparecera e numa conspiração entre o Divino e a vida o dia nasceu e o sol é o mesmo para todos. Para os bons e para os menos bons. Num alinhamento único tudo estava ali, num território onde as mais pequenas conquistas tem qualquer coisa de gigante. “ O melhor de tudo é mesmo as expectativas. Saíram completamente furadas, mas para melhor. Digamos que não há nada que nos desarme mais do que conversar com um miúdo de 10 anos afegão que nos diz que esteve 30 dias em alto mar para chegar ali, e ele não conseguir parar de sorrir e ter “aquele” brilho nos olhos. É lindo”.

foto 4

E agora que o Gonçalo voltou, temos a certeza que vai olhar de maneira diferente para este Fevereiro que para ele foi o mês mais preenchido do ano. A sua vida alinhou-se junto daquelas vidas, num lugar que muitos preferem não lembrar. Eles, por lá, vão olhar todos os dias a mesma lua que o Gonçalo, vão aquecer-se com o mesmo sol e vão sorrir a cada disparo de um outro rapaz que vai pousar a sua máquina sem hesitar. Foi ali, naquele mar e naquele campo que teve a noção de que foi a sua alma que teve um enquadramento perfeito…


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