PZ: “Quem não tem sentido de humor nunca vai perceber o alcance daquilo que faço”

O pijama pode ser o melhor modo de estar na vida. Ou pelo menos na música. Paulo Zé Pimenta não tem dúvidas e para o seu alter-ego PZ esta é muito mais do que uma farda de trabalho. O pijama é toda uma afirmação social e artística para sussurrar ao mundo entre dançaveis e hipnóticas batidas aquilo que precisa de ser dito. Dois anos depois da sua passagem pelo Theatro Circo, PZ regressa com “Império Auto-Mano”, produto mais refinado, mas com o tempero habitual a que já nos habituou. No mundo de PZ não entram rótulos nem gente mal-humorada. A ironia continua tão omnipresente como os croquetes mas a electrónica que os adorna é apenas a camada visível de alguém atento, crítico e que não esquece como chegou até aqui.

Nasceste em 1980 e cresceste numa década culturalmente muito fértil. Que nomes te marcaram ou que ainda continuam a influenciar o teu trabalho?

Lembro-me, tanto em casa como no carro em viagens com o meu pai e o meu irmão de ouvir The Smiths, The Cure, Sisters of Mercy, Leonard Cohan, Led Zeppelin, entre outros. Na altura não percebia bem bandas como como os Smiths mas mais tarde acabei por ouvir com mais atenção e seguir a carreira do Morrisey, bem como outros artistas. O meu pai levou-me a concertos míticos como os Nirvana, Pearl Jam, Guns’n’Roses, Cult e eu na altura bebi toda essa influência grunge, andava até com uma daqueles camisas aos quadrados que se usava na altura (risos).

Por volta dos meus 20 anos comecei a ouvir techo, hiphop, a ir a festas transe, a testar música mais experimental como o alemão Felix Kubin, foi nessa altura que comecei a explorar mais o universo electrónico mas nunca deixei de ouvir as bandas que referi e outros géneros também. O meu pai acabaria por ser (não só musicalmente) uma grande influência.

Na actualidade as redes sociais julgam e crucificam continuamente tudo aquilo que foge ao padrão da “normalidade”. Já sentiste na pele alguma dessa intolerância para com tudo o que é diferente?

É normal hoje em dia. O fenómeno dos haters começou com a internet mas ganhou uma nova dimensão com as redes sociais, que são uma bela piscina para aliviar frustrações e mandar algumas pessoas para aquele sítio. Quando somos mais novos, o facto de surgir uma música que não gostamos é visto por muitos como uma afronta, algo que se leva mesmo a peito. É curioso ver as paixões e os ódios que a música gera, sobretudo entre os “fundamentalistas” que defendem o que é ou não hiphop, só para dar um exemplo. Felizmente tenho um público fiel e é para ele que me interessa fazer música.

A falta de sentido de humor é um mal nacional?

Quem não tem sentido de humor acho que nunca vai perceber o alcance daquilo que faço. Eu já tive um episódio com uma provedora da RTP a propósito da “Cara de Chewbacca ” em que ela afirmava que o tema tinha conteúdo sexista e dissecou a música letra a letra durante 3 programas seguidos. Eu fui aos arames e falei com ela e depois dessa conversa acho que ela percebeu o que realmente eu queria dizer e conseguiu-se ultrapassar essa questão. Felizmente são mais os episódios de feedback positivo do que situações destas.

Falemos do teu processo criativo. Eu arriscava dizer que é de pijama que mais vezes acontece…. confirmas?

(risos) Sim, durante muito tempo era de pijama que compunha em casa, no sofá (que é uma das peças de mobiliário que mais menciono nas minhas músicas). Com a miniaturização  crescente das ferramentas de trabalho é possível hoje trabalhar confortavelmente em casa.

Com o passar do tempo o pijama tornou-se um símbolo, uma espécie de fashion statment (por antítese a outros artistas que usam outros fashion staments mais flashy) e hoje em dia usamos sempre em palco. Aliás, sentimo-nos desconfortáveis se não actuarmos assim.

Fala-nos um pouco do Império Auto-Mano, o teu último trabalho e de que grandes diferenças encontras para os primeiros que fizeste.

Embora haja pontos de contacto com os trabalhos anteriores é obviamente uma evolução natural. Neste trabalho dei mais liberdade a mim mesmo para tocar sintetizador, guitarra, baixo…O processo criativo é o mesmo mas estou numa fase diferente da minha vida e quis fazer algo mais elaborado e se calhar mais eclético e acho que consegui. Estou muito satisfeito com o resultado final.

Sei que não gostas de rótulos nem classificações, mas há alguma “caixa” em que se possa dizer que o teu trabalho tem lugar?

Eu gostava de criar a minha própria caixa. Há músicas que são mais hiphop, outras mais techno, outras mais acid, há vários estilos… Já não gostava de rótulos quando ouvia música, não vai ser agora que me vou “encaixar” num. Tal como outras bandas, também eu vou buscar influências a vários lados. Os géneros tem tendência a desaparecer. O projecto PZ é algo muito pessoal e ao qual quero dar um estilo muito próprio e se tiver que ser de pijama, que seja! (risos)

Estiveste na Noite Branca de Braga há dois anos, a actuar no Theatro Circo. Que recordações guardas dessa noite?

Foi no salão Nobre do Theatro Circo e foi muito fixe. O sítio é incrível! Na altura levamos as “Mensagens da Nave-Mãe”, projecto da altura, que tinha umas projecções em vídeo algo espaciais e naquele ambiente o contraste com o local fazia lembrar aquela cena final do filme 2001. Resultou muito bem, foi uma noite muito especial.

 

Inquérito de Verão:

 

O que andas a ouvir?

Alguns temas dum projecto recente em que em que estou a trabalhar com o João Salcedo.

Ídolo de infância?

Kurt Cobain.

O que está sobrevalorizado actualmente?

O Whatsapp. Mesmo assim também já fui “contaminado” e tive que instalar.

Não consegues passar um dia sem?…

Croquetes.

Vais para uma ilha deserta. Entre croquetes, um sintetizador e um pijama só podes levar um. Qual?

O sintetizador.

Quando estás com a neura a solução é?…

(risos) ficar em casa!

A tua primeira medida como 1º ministro seria?…

Destituir-me a mim próprio!

Destino de férias?

Algarve.

Bebida?

Cola.

Comida (exceptuando croquetes)?

Bacalhau, nas suas mil e uma maneiras.

Se não fosses músico serias?…

Designer ou jogador de futebol.

Em que posição?

Médio criativo! (risos)

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