“Os Cegos”- a metáfora sombria sobre o drama dos refugiados

“As palavras são tudo o que temos”. A frase é de Samuel Beckett, autor e dramaturgo com uma ligação umbilical ao movimento do simbolismo, ramificado extensivamente na literatura e no teatro. E foi de palavras (e emoção) que se fez a noite na sala principal do Theatro Circo. Logo à chegada o público foi confrontado com uma sala imersa na mais completa escuridão. Com a mãos apoiadas no ombro de invisuais, pequenos grupos de espectadores foram guiados em fila pela penumbra até aos seus lugares.

No palco o drama vive-se com os sentidos que restam num desafio sensorial. As personagens são almas perdidas numa ilha, vozes desesperadas que procuram auxílio e um porto seguro que ponha fim ao tormento que vivem. Uma metáfora perfeita para a Europa dos nossos dias, um velho sonho actualmente transformado num farrapo humanitário feito de desilusões e tragédias sem forma nem remendo.  “Para que precisamos de luz se não conseguimos ver?” questiona um dos actores não profissionais que constituem o elenco d’Os Cegos, grupo constituído exclusivamente por elementos da Comunidade de Leituras Dramáticas e por cidadãos refugiados a residir na cidade de Braga. ´

No desenrolar da história o momento mais dramático acontece precisamente na ausência súbita de diálogo, no silêncio esmagador e atroz que faz temer o pior. A utilização inteligente dos silêncios é uma marca indissociável do drama beckettiano, potenciada eficazmente neste texto de Maurice Maeterlinck, dramaturgo belga que para além desta peça escrita em 1890, redigiu (entre muitas outras) o prefácio do discurso político de Salazar durante uma breve estadia em Portugal.

No final a sala ovacionou os actores e refugiados na certeza que, tal como Beckett dizia “As lágrimas do mundo são inalteráveis. Para cada um que começa a chorar, em algum lugar outro pára. O mesmo vale para o riso.”

A peça de teatro “Os Cegos” estará em exibição até 13 de Abril.

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