Orelha Negra: “Na essência, somos muito mais que hip hop”

As receitas mais eficazes são, frequentemente, as mais simples. Senão vejamos: juntem-se 5 artistas talentosos com uma experiência amadurecida e créditos firmados cada um na sua área. Deixem-nos marinar o tempo suficiente para que samples, beats e scratches se fundam numa massa homogénea e uniforme. Polvilhe-se com dedicação, entusiasmo e uma pitada de inconformismo. Depois de pré-aquecido, leve-se o preparado ao estúdio à temperatura máxima. Sem deixar arrefecer, sirva-se em palco acompanhado de público sedento por novidades na mais bela sala de espectáculos do país. É de deixar água na boca, não é?

Os Orelha Negra estreiam-se na sala principal do Theatro Circo e trazem consigo algumas novidades sobre o novo álbum. Em jeito de aperitivo para a noite de sexta falamos com o baixista Francisco Rebelo para saber o que nos espera.

francisco rebelo

Olá Francisco. No início mais remoto do projecto as expectativas eram seguramente diferentes do que são hoje. Corrige-me se estiver errado, mas a originalidade do formato e a ausência de vocalista fez provavelmente com que tivessem que esperar pelo feedback do público para perceber que este projecto não seria algo limitado a clubs e podia crescer para concertos e festivais como agora acontece naturalmente… Alguma vez ponderaram mudar o conceito?

Não! Gostamos de fazer a música como a temos feito até aqui. instrumental. Agrada-me a ideia de que o ouvinte criará uma sua narrativa, para cada música que houve, e que até poderá ser diferente dependendo do mood ou circunstância em que a ouve.

Em relação ao feedback, como dizes no início, o nosso projecto era fazer uns concertos em clubes, mas depois de sair o disco, as pessoas começaram a ficar curiosas com o nosso som, e começaram a ter interesse em sentir a coisa live. Sentir o power, e assistir à performance da banda ao vivo. Acho que para muitas pessoas, tem constituído um desafio tentar perceber o que nos nossos arranjos é tocado por instrumentos e/ou samplado, o que é uma coisa que também nos diverte fazer.


orelha negra 01Foi fácil perceber o que o público mais começou a gostar no vosso som? (as redes sociais facilitaram certamente este processo, não?)

Para mim foi uma verdadeira surpresa! Acho que todo o processo que envolveu a apresentação do 1º disco, como as fotos promocionais com a cena do sleevefaces, a capa do cd, o poster, etc…, e que eram ideia que íamos tendo muito descontraidamente e sem grande estratégia pré definida, acabaram por ter um impacto nas pessoas, talvez por serem apenas diferentes. Musicalmente, penso que também não era comum uma banda que juntasse este tipo de instrumentos e que pudesse reinterpretar as músicas ao vivo. Qualquer coisa como se de repente pudesses ter um instrumental a ganhar vida à tua frente.

Nas redes sociais, gostamos de manter alguma proximidade com os fans, e ao longo do tempo temos sempre apresentando diversos conteúdos exclusivos, como os podcasts ou em parcerias como a Antena 3, como o caso mais recente do mini cincerto no programa NO AR.

Houve algum ajuste em função desse feedback? (repetir a mesma fórmula, minimizando os riscos?)

Não! Tentamos ao máximo que isso não aconteça. Gostamos de desafios! No entanto também é fixe desenvolver e apurar ideias, métodos ou técnicas que arriscámos fazer num disco anterior, e que com a experiência entretanto adquirida, podemos melhorar no disco seguinte, mas aquilo que realmente nos excita é procurar fórmulas diferentes, mantendo no entanto, aquela identidade do som Orelha Negra.


O prazer genuíno que cada um retira daquilo que faz e a química inquestionável que vos liga é o segredo para aquilo que se vê em palco e que o público tanto gosta?

Sem dúvida! o nosso som é uma verdadeira soma das partes! termos tocado juntos todos estes anos, fez com que nos conhecêssemos melhor, e isso cria uma empatia entre nós, que não é muito explicável por palavras, mas que se traduz melhor na música que fazemos e tocamos juntos.


“ Aquilo que realmente nos excita é procurar fórmulas diferentes, mantendo, no entanto, a identidade do som Orelha Negra”


Ocasionalmente para crescer é preciso sair da zona de conforto e arriscar, passando as fronteiras do som que vos é mais característico. Quando convidam alguém fora do “vosso universo” (como aconteceu por ex. com a Lúcia Moniz) o objectivo é explorar e enriquecer musicalmente?

O convite que fizemos à Lúcia, surge no âmbito das mixtapes. Nas mixtapes nós não tocamos. Submetemos as nossas músicas a outras visões, que podem ser, como no caso da Lúcia, pegar no instrumental e acrescentar-lhe uma melodia vocal com uma letra. Mas também podem ser rappers a rimar por cima de remixes, como foi o caso do Solteiro (com o STK e o regula, ou versões com o “Since you been gone”, com o Orlando Santos. No fundo, o espírito das nossas mixtapes passa também por serem cartões de visita para outros tipos de público, que por uma razão ou outra não estiveram atentos aos discos originais, e que através dessas mesmas remixes e versões acabam por comprar os discos ou ir a concertos para sentir a coisa à séria, ou ainda porque simplesmente admiramos que este ou aquele artista possa contribuir, como dizes na pergunta, para explorar e enriquecer musicalmente a nossa cena.

ORELHA NEGRA 02À medida que os anos passam cresce a sintonia e automatizam-se os processos entre os elementos dos Orelha. Sentem alguma rotina a instalar-se durante o processo criativo?

Não é fácil criar rotinas nos Orelha Negra, com as vidas profissionais tão carregadas que cada um de nós tem. O nosso processo criativo tem os mais diversos métodos desde o alto refinamento, até ao vale tudo!

Encaram o hip hop como um ponto de partida para explorar outros estilos? Ou um ponto de chegada a que sempre retornam, pois é, afinal, a vossa “casa”?

Um pouco dos dois. Costumo dizer que os Orelha Negra são hip hop na forma, mas na essência, muito mais.

Como se enquadra o cenário da sala principal do Theatro Circo neste novo trabalho que vão apresentar? O que podemos esperar dia 17?

É a primeira vez que tocamos com Orelha Negra nesse belo auditório. Será o primeiro concerto em sala fechada, nesta tour de 2016. Iremos preparar um espetáculo à altura, com material do novo álbum, que está quase pronto, bem como uma seleção especial do repertório dos álbuns anteriores, acrescida com alguns dos meddleys de clássicos que adoramos tocar, tudo devidamente pintado com muita luz e cor. Esperamos que o people de Braga compareça massivamente. Vai ser lindo!

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