O folclore é uma herança que passa pelo coração

Alguém um dia sonhou que a sua obra  iria perdurar. Há precisamente 80 anos atrás, muito mais que um segredo, um objectivo. Em Braga, dia de São João Baptista, no perímetro entre a tradição e a vontade, nasce o Grupo Dr Gonçalo Sampaio pelas mãos e pelo coração do Prof. Dr. Gonçalo Sampaio com a amizade e companheirismo do Prof. Mota Leite, seu amigo, companheiro e confidente. Deixaram as coordenadas certas. O folclore, a tradiçao e as suas gentes estavam no caminho certo e em boas mãos.

manuela 01Manuel Sá Fernandes é o terceiro nome que impera neste dia em que se passaram mais de oito décadas de perseverança, fé e paixão. Trabalho que se nota, por fora e por dentro num ambiente deliciosamente barulhento com as suas danças e as suas cores. Este grupo que é respeitado por todo o país é o mais antigo do Baixo Minho e já não precisa de pedir licença para entrar. É bem-vindo. Traz com ele histórias de gentes para gentes. Entregam a sua alegria a cada lugar distante, ou não, que os queira receber. São quarenta os benfeitores, os apaixonados, os que vestem de orgulho o seu traje, aquele que os distingue, que os faz lembrar que ser do Minho, ser de Braga é ser e ter a tradição e o passado bem colado à pele.
 Os sonhos, podem ser guardados numa gaveta, mas os que são partilhados e trabalhados ficam especiais. E todos nós gostamos de coisas especiais. Somos muitos os que hoje agradecemos a quem, há 80 anos decidiu perseguir um sonho e a quem hoje o mantém bem vivo na nossa vida e na vida de uma cidade . Queiramos nós que assim seja e permaneça por muito mais tempo.
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Chegou relativamente cedo o encantamento pelo folclore. Mal falava e já retinha no pequeno corpo o vibrar dos socos a bater na madeira dos palcos sempre que acompanhava seu pai.  As saias e os lenços perdiam-se entre bonecas e quilómetros de estrada que fazia sempre com a mão bem unida aquele que ainda hoje permanece ao seu lado, mesmo sendo apenas e tanto em pensamento. Na adolescência, o brilho do ouro que carregavam no peito e nas orelhas, as saias, as capotilhas tornaram-se  uma experiência não muito agradável aos olhos da menina mulher que hoje gere com garra o mais antigo grupo etnográfico do nosso Minho.
 ” Sentia-me envergonhada por actuar perante o público, principalmente nas actuações aqui em Braga onde os meus amigos e colegas de escola podiam estar presente e depois iriam troçar de mim na escola (risos). Quando essa fase finalmente passou, a minha vontade e paixão parece que aumentou e hoje continua a ser um orgulho cada vez mais crescente fazer parte desta família” confessa Manuela Sá Fernandes.
Mas como sempre, a vida, aquela que raramente conseguimos controlar tem sempre uma palavra a dizer. Mesmo que nós não queiramos, mesmo que achemos que não. E foi assim mesmo. Manuela perdeu o toque e a força que lhe apertavam a mão, os braços que a empurravam para subir ao palco, os ombros que a carregavam enquanto caminhavam pela avenida em pleno São João e onde, num gesto de amor,  segredava ao ouvido do seu pai que os seus trajes eram os mais bonitos.
Mas enganem-se os que pensam que essa força desapareceu com ele, Manuel Sá Fernandes deixou a força interior, deixou um legado de garra e honestidade. Hoje, a Presidente do Grupo Dr Gonçalo Sampaio carrega nos seus ombros anos de trabalho que ela orgulhosamente exibe em cada aparição que fazem. Com a sua juventude, trouxe também ideias e ideais que semeou e onde já começa a  colher os seus frutos. Os jovens, aqueles que ela quer puxar para perto de si, os que precisam de ter orgulho nas suas raízes começam a ter vaidade em tudo o que é genuíno e tão nosso. “Quero que os jovens gostem do que é nosso, quero que respeitem a nossa tradição e a nossa história. O meu grande objectivo passa por aí, conseguir puxar os mais jovens para perto das tradições e do folclore, mostrar e contar a história que um dia foi o seu passado“. Também como guardiã do Museu do Traje, um dos espaços que se tem tornado num ponto de referência tanto para bracarenses como para turistas é um dos lugares mágicos que é fácil respeitar. Um lugar que vai para além da beleza histórica, um espaço que emana décadas de legado, de vidas ali contadas em trajes e objectos minuciosamente escolhidos. Lá aprende-se muito. Observamos, ouvimos, cantamos e  encantamos-nos.
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Cada um destes  trajes conta uma história. Era habitual as moças fazerem a sua própria roupa, demoravam anos até terem tudo terminado. Geralmente, as raparigas tinham poucas posses e só tinham um único traje que era o usado para casar, para sair ao Domingo e posteriormente eram enterradas com ele, daí a dificuldade de conseguirmos aqui para o Museu do Traje algumas das indumentárias usadas naqueles tempos.
A história do folclore tem uma fórmula muito própria. A atenção ancestral ao detalhe. O respeito pela minúcia. Por isso, não bastam as palavras rancho e festa, para perceber a essência. Essas duas palavras estão no meio de outras tantas que Manuela Sá Fernandes tenta ensinar . Fazem parte de um vocabulário rico, que para além de palavras pode ser redigido com actos . “É fundamental para os bracarenses aprenderem algumas das nossas tradições, nomeadamente bordar e tocar instrumentos característicos da nossa região. Só assim será possível conservar, manter e preservar as nossas tradições.”
Manuela Sá Fernandes sempre teve ao seu lado pessoas especiais, que a apoiam e a ajudam a elevar ainda mais este seu trabalho. Uma dessas pessoas é Rui Ferreira, Presidente das Festas de S. João e que apoia integralmente todas as associações que ajudam a valorizar esta que é a maior romaria do país.
rui-ferreira-sjoao“O Folclore é fundamental, o São João é o palco primordial das associações etnográficas de Braga, sempre foi. Quando cheguei à associação de festas, eu convidei elementos de entidades para fazerem parte dos eventos sociais, e o grupo Gonçalo Sampaio foi um deles dado a história que tem e por ser o grupo folclórico mais importante e antigo do concelho de Braga e aquele que acabou por promover a nossa etnografia” salientou Rui FerreiraO sonho foi cumprido e persiste. Hoje existe uma história, várias gerações marcadas pelo tempo e pela alegria de todos os que estiveram antes, de todos os que vierem depois e dos todos os dias querem fazer parte desta família. Certamente haveria ainda muito para contar. Não conseguimos  guardar todas imagens que queríamos. A Manuela não conseguiu transmitir por palavras todo o orgulho que sente por caminhar diariamente num trilho outrora desenhado por seu pai. Mas é verdadeiramente feliz neste percurso. Tanto.

Lá fora, a cidade festeja a última noite das festas de S. João. As ruas a ferver de gente. Os cheiros e as músicas misturam-se. No coração de Manuela Sá Fernandes e no de todos que a acompanham, festeja-se mais um ano de dever cumprido, são já oitenta os anos de vida de um grupo que mantém as suas tradições . Hoje, a cidade tem que lhes agradecer…

 


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