Moçambique e os sonhos bonitos que carrega

Memórias. Num sitio de chegada. De amor ao primeiro olhar. Memórias. Num vai e vem de corpos. Humanos sonhadores. Abrir as portas com um simples sorriso. Portas de areia e mar, onde muitos se espraiaram contra a luz do sol. Moçambique e os abraços entre um passado e um presente que quer sorrir .Respirar fundo. Viver os dias sem contar os dias. Sonhos transparentes estes…Como as águas do seu mar !

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Evocação de uma aventura… Ressoa o nome de Vasco da Gama por entre o céu e o mar: ‘Ele não podia imaginar a grandeza de Moçambique’. Esta é a ilha da chegada. Anteriormente árabe e hoje qualificada como Património da Humanidade, foi ela que doou o nome ao país.

Com rosto de homem maduro, o ilhéu mostra-se agradado pela presença dos viajantes, conterrâneos do navegador. Da memória sobram paredes derrocadas a desvelarem graciosas artes ornamentais sobrepostas à compostura dos edifícios recuperados. O espaço sagrado abandonado do colonizador é agora maculado por músicas e danças prazenteiras e inocentes, enquanto ao clic da objectiva se mostram olhares numa indiferença mal disfarçada. Os corpos, esses deambulam absortos dos seis séculos que os distanciam das embarcações portuguesas.

 

‘África do futuro…’. É a voz do artista plástico. Ele nos surpreenderá mais adiante, como que subtraído a uma película de Federico Fellini.

Mas ‘De Moçambique…’ fixa-nos o olhar no hoje cumprido na paisagem de cabanas pacientemente construídas de terra, na malária e no desejo de que cheguem ‘grandes empresários’, afirmado com ressentimento: das pedras preciosas e da madeira não se vê proveito.

Entretanto, o futuro balança nas costas da mulher que retira água do poço, num movimento pendular reproduzido pela atitude infantil. Serão estas crianças capazes de assumir o desafio do desenhador de capulanas ou da manobradora de gruas? O cartaz publicitário garante que quem lê é capaz de criar desenvolvimento…

Os viajantes perseguem este desafio. No cenário da convivência de um urbanismo esventrado com edifícios (e automóveis) de luxo, já se perdeu o conto aos anos que separam a revolução de Machel da espera do alfaiate, na borda do passeio. E nem o exibicionismo na discoteca ou o raciocínio do artista plástico conseguem arregimentar cidadãos futuristas na multidão que, alheada à panóplia de anúncios, vagueia nos mercados de rua – de calçado, de produtos agrícolas ou de cabeleiras postiças… tanto dá!

‘Colonialismo é um crime contra a Humanidade’. A máxima, ditada na obscuridade, parece ser teimosia serôdia sobre uma história resgatada pela película de 8 por 8. Até porque é o taxista quem traz à conversa o presidente Marcelo, a dívida ao FMI e a questão incontornável da RENAMO, mas sem atrever-se: ‘A polícia da República é uma comédia’? O rap garante que sim, abstraído dos anúncios a um banco estrangeiro empoleirados no palco. Destas abstrações ainda não se incomodam os rostos do futuro. Pacíficos ou atrevidos; divertidos ou insensíveis… Alinham-se em ‘foto de família’ para a posteridade, mesmo desconhecendo os caminhos que lhes serão desvendados. O rosto da criança branca que se atravessa é prenúncio de uma aventura?

“De Moçambique…” não é discurso de documentário. Trata-se do olhar de dois novíssimos de uma avidez cônscia, assumindo a atitude de interlocutores que se propõem a um diálogo não selectivo do tempo e do modo encontrados.

“De Moçambique…” não replica, deixa-se construir pela memória de Vasco da Gama, mesmo reconhecendo que a terra pós-Machel é agora povoada por incógnitas incontornáveis, de momentos desalinhados com cada uma dessas narrativas.

Mário Robalo

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