Luísa Sobral: “agora comecei a explorar a alegria”

Luísa Sobral. A menina mulher. Aquela para quem as coisas mágicas da vida são a soma de pequenos momentos. Luísa Sobral. A cantautora que nos prende e arrasta para dentro da sua pequena grande voz. A mulher e a artista fundiram-se, esqueceram as coisas banais, os dias iguais a todos os dias, perderam-se nas noites longas que lhes trariam as respostas em forma de canções.

Nas voltas da vida, nessas que Luísa conhece desde sempre, estava o querer. Esse verbo imprescindível que praticou sem olhar para trás, sem recuar, sem reclamar. Foi o praticar constante e incansável neste verbo que trouxeram a Luísa Sobral o seu novo trabalho. “Luísa”, a sua segunda pele. O seu eu mais profundo foi hoje despido em forma de música no Theatro Circo. O lugar que tanto a apaixona, ficou hoje ainda mais bonito com a sua presença

 

luisa sobral theatro circo badio magazine 03

 

Foste à descoberta de novos mundos tal qual os descobridores portugueses. Como eles, atravessaste o Atlântico onde outrora viveste 6 anos. Hoje, regressas a Portugal  com um disco feito a 9121 Km. Que sentimentos sobressaem desta jornada ?

Foi no segundo trimestre da minha gravidez, quando os médicos me deram o consentimento para viajar que eu fui fazer a gravação deste disco tão especial. Demoramos apenas três dias e meio a fazê-lo por isso nunca senti aquela saudade que muitos artistas sentem quando viajam em trabalho. Vivi mais de seis anos nos EUA por isso  acaba por ser um sitio onde me sinto muito em casa, e depois eu sou aquele tipo de pessoa que acredito mesmo que estar em outros sítios nos faz muito bem. Sinto que quando gravo aqui em Portugal, e a seguir vou para casa acabo por deixar que a minha vida se misture com o disco e é bom eu emergir-me só com  disco, estar ali só para aquilo, e a única maneira de o fazer é ir, sair da minha cidade. Já fiz isso no Porto e agora fui até Los Angeles onde a língua diferente, as pessoas, a comida e tudo o que envolve aquela comunidade fizeram com que se torna-se uma experiência espectacular. Sinceramente gostava que as coisas fossem sempre assim, não necessariamente em Los Angeles porque não fui eu que escolhi a cidade mas sim o produtor que vivia lá, mas gosto muito desta ideia de sair daqui durante o tempo para gravar, centrar-me só naquilo, porque funciono muito melhor assim.

 

Escolheste o produtor Joe Henry, um nome não muito famoso mas bastante aclamado no mundo dos artistas. O peso de trabalhar com esse monstro foi grande?

Eu nunca penso muito nestas coisas, eu penso sim, quem é a pessoa que vai trazer alguma coisa ao meu trabalho, nem que fosse uma pessoa super conhecida , nem que eu fosse buscar a Adele, eu não ia estar a pensar no impacto que esse nome continha, eu pensava sim, a Adele vai trazer “isto” à minha música , foi isso que eu pensei com o Joe, não pensei que ele já tinha ganho 4 grammys, aliás eu vi isso depois, não ligo muito a isso. Eu simplesmente ouvi o seu trabalho e pensei o que ele poderia trazer-me, e depois de um contacto começamos a conversar e tornou-se o Joe, o músico que me iria fazer o disco. Não sou uma deslumbrada por essas coisas, não foi pelos prémios que ele ganhou que irá fazer de mim a pessoa que vai ganhar mais um grammy.

Como foi feito todo o processo de escolha dos temas para o disco?

O Joe escolheu seis e eu fiquei com outras seis, colocamos doze no disco. Enviei-lhe todas as canções tal como combinado e fizemos a escolha, eu escolhi seis que eram mesmo muito importantes para mim e quando ele me enviou a sua escolha olhei para aquilo e pensei “estanho, há aqui algumas que eu nunca poria no disco” mas isso é que é realmente trabalhar com um produtor, confiar numa pessoa que vê a música e o nosso projecto de fora e vê potencial em algumas coisas que se calhar nós não conseguiríamos ver, e foi exactamente isso que aconteceu, uma canção como o “Alone” que é uma das que eu mais gosto no disco, no inicio não era das minha preferidas, para mim nem entrava no disco e ele pegou na canção, colocou-a e tornou-se numa das minha preferidas. Depois o “On my own “, que seguia exactamente o mesmo caminho da “Alone”, ou seja iria ficar de fora e ele mais uma vez a colocou e hoje é das que mais gosto de tocar e interpretar. Esta minha escolha só veio reafirmar que é sempre bom trabalhar com um produtor, alguém que tomou as rédeas do projecto, conseguiu que eu visse a minha música de outra perspectiva.

Estando tu num estado de graça, de alguma maneira as hormonas interferiram na gravação?

Sem dúvida estava mais sensível, mas gravar o disco foi tão emotivo porque íamos criando todos juntos e todo esse processo foi tão especial para mim que eu não consigo perceber se toda emoção foi potenciada pela minha gravidez ou se foi mesmo de todo este processo.

Mas ajuda ao processo criativo…

Durante a gravidez eu estive sempre a trabalhar no disco por isso não compus, e agora desde que sou mãe compus muito pouco porque não tenho tempo, por isso ainda não jogou muito a meu favor essa parte hormonal criativa (risos), ainda estou à espera, talvez numa próxima gravidez possa testar um bocadinho mais, nesta infelizmente ainda não consegui…A única canção que eu escrevi foi sobre a quinta, sobre pintainhos, uma música para o meu filho e nada mais.

Este é um disco muito pessoal, até o próprio nome o confirma. Consegues adjectivá-lo ?

Sim. Eu acho que este álbum é cru, orgânico e pessoal porque é muito autobiográfico… e é quentinho (risos).

“Luísa” assume-se como um disco feliz e uma mulher feliz?

Eu já era feliz, mas gostava muito de explorar a tristeza e agora comecei a explorar a alegria. Obviamente que tenho canções que não falam necessariamente da felicidade,mas os meus outros discos eu quase não falava do amor bem sucedido ou da felicidade, e neste sim, mesmo a minha maneira de falar da tristeza é diferente . Perdi um bocado esse preconceito que tinha comigo mesma, achava sempre que os assuntos mais felizes podiam rapidamente ir para o cliché e perdi esse medo de ir para o cliché porque comecei a encontrar a beleza no cliché também, até porque se ele existe é porque acontece muitas vezes e há algo bonito nele.

O bom filho à casa torna?

Sim, claro. Eu sou muito feliz a viver em Portugal, não quero pensar no que vai acontecer no futuro mas agora o meu ideal é viver aqui,  fazer concertos cá, lá fora, mas regressar sempre.

Como artista como vês o estado da cultura em Portugal?

Há sempre coisas magnificas a acontecer e cada vez vou descobrindo mais, principalmente agora descubro um novo mundo de eventos para crianças, desde teatro a concertos onde levo o meu filho que nem sabia que existiam. Acho que o grande problema na cultura é esse, existe muita coisa mas é muito pouco divulgado e só o descobrimos se o procurarmos, o que deveria ser ao contrário. As coisas deveriam aparecer para nós termos a vontade de o fazer. É preciso reeducar o português a assistir a espectáculos, porque não é um hábito do nosso povo ir a um teatro, a uma ópera, dança, mesmo as salas de cinema estão vazias à semana, acaba por não ser muito nosso, não está muito em nós assistir a espectáculos, mas se houver uma maior divulgação as coisas podem sempre melhorar.

Fala-nos dessa paixão que tens pelo Theatro Circo...

Eu digo sempre isso, já o digo há anos a ver se me convidavam outra vez e nada (risos), que chatice pensava eu, repetia sempre, “adoro o Theatro Circo” e nada…Agora finalmente funcionou (risos). Mas é realmente verdade quando o afirmo, este é mesmo o Teatro mais bonito do país, é muito consensual e sempre que aqui entramos  parece que voltamos sempre um bocadinho ao passado.

 

 

 


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