Leviatã, o filme oscarizado que o governo russo reprovou

Leviatã surge pela primeira vez no Antigo Testamento como uma criatura demoníaca. Durante a Idade Média a igreja católica atribui-lhe a representação do quinto pecado, a inveja. Mas é no Livro de Jó que Leviatã tem a sua aparição mais impressionante, presente no diálogo entre Deus e Jó: “ninguém é bastante ousado para provocá-lo; quem o resistiria face a face? Quem pôde afrontá-lo e sair com vida debaixo de toda a extensão do céu?”

Tal como nesta passagem bíblica, também no filme de Andrey Zvyagintsev que estará em exibição no Theatro Circo no dia 9 às 21H30 a luta é desigual entre um mero cidadão e o governo opressor.

leviata-Theatro-Circo 01Leviatã conta a história de Kolya, um homem simples que vê a sua propriedade subitamente tomada por um político local. Com planos para construir um empreendimento, o autarca faz uso (e abuso) do seu poder para confiscar o terreno, e forçar Koyla a abandonar aquele que sempre foi o seu lar e local de trabalho. Na obra de Zvyagintsev assistimos à luta inglória de Koyla, qual D. Quixote a debater-se contra os moinhos, acabando engolido pelos tentáculos dum estado cego e implacável.

Galardoado com Oscar para Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Argumento em Cannes, Leviatã tem colecionado tanto prémios como gerado controvérsia, sobretudo junto das autoridades russas. De facto, tanto o governo como a igreja se insurgiram contra a obra, de tal forma que o Ministério da Cultura elaborou um projecto-lei que visa proibir a distribuição de filmes que “denigram a cultura russa, ameacem a união nacional e minem os princípios da ordem constitucional”

Na Rússia, a polémica foi a melhor alavanca que o filme poderia ter. A distribuição da película aconteceu também fora dos moldes tradicionais: em alternativa aos canais habituais de promoção, os responsáveis optaram por divulgar o filme na íntegra e, em vez de processarem os sites e utilizadores que o partilharam, optaram por criar uma página para recolher donativos. O fenómeno viral foi de tal ordem que transformou-se até em tema de discussão no Foro Gaidar, o evento político e económico mais importante da Rússia.

Mais do que um intenso drama, Leviatã é, como referiu o jornalista José Milhazes “um retrato feio, cruel, duro, mas verdadeiro de grande parte da Rússia” que vale a pena descobrir.

 


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