O lado negro de Poe brilha no Theatro Circo

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.

Há algumas boas razões para não perder o espectáculo “O Corvo” esta quinta e sexta no Theatro Circo. Aqui fica uma mão cheia:

1. É a primeira vez, desde a reconstrução do Theatro circo em 1999 que uma ópera de câmara sobe ao  palco principal da sala bracarense. Esta versão “light” da ópera tradicional está destinada a espaços mais pequenos e sem a “artilharia pesada” das grandes orquestras, o que não diminui de modo algum o espectáculo, proporcionando uma experiência mais próxima e intensa ao espectador.

2. Esta é uma rara oportunidade de ver uma ópera cantada em português, algo pouco frequente num género dominado pelo alemão e italiano e num país onde são escassos os espectáculos deste tipo.

Corvo3. O poema de Edgar Allan Poe traduzido por Fernando Pessoa. Há obras que se confundem com os seus criadores e “O Corvo” é não só uma das mais belas e geniais criações do escritor americano mas certamente aquela que ficará para sempre gravada no adn do autor. O poema apresenta características únicas em termos de métrica, fonética e musicalidade tendo constituído um desafio acrescido aos tradutores, tarefa só ao alcance de génios como Fernando Pessoa que conseguiu com brilhantismo e mestria fazer a tradução mantendo intactas as características que tornaram este poema único.

4. O tema. A ave negra e agoirenta que dá nome ao poema de Poe carrega um peso simbólico significativo. É um animal inexpressivo e misterioso cuja sinistra presença afecta os presentes. “O corvo” convida-nos à reflexão sobre a mortalidade, a solidão, o vazio e a experiência perturbadora de enfrentar a inexorabilidade da nossa finitude. Pela representação e voz de alguém que se confronta com a morte somos inevitavelmente arrastados para este universo sombrio de sofrimento e revolta de quem fita o abismo e materializa em palavras um sentimento transversal à condição humana.

5. A qualidade inquestionável da produção e dos seus intervenientes. Do virtuosismo do barítono Rui Baeta ao rigor e criatividade do encenador Alexandre Lyra Leite, passando pela conjugação de talentos de toda uma equipa orientada para o mesmo fim, “O Corvo” que sobe ao palco principal pela mão da companhia Inestética é a mais perfeita e acessível viagem que podemos fazer ao universo obscuro e fantasmático da obra de Edgar Allan Poe.


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