Föllakzoid: Do Chile ao Cosmos com escala no GNRation

Muito perto do cemitério entendemos os sacos-cama e pusemo-nos a fumar e à escuta do silêncio: o murmúrio telúrico de milhões de pedras que, aquecidas pelo sol, estalam infinitamente com a violenta mudança de temperatura. …/… Quando me pus de pé, vi que o deserto estava vermelho, intensamente vermelho, coberto de pequenas flores cor de sangue.

– Ali as tens. As rosas do deserto, as rosas de Atacama.

 

No conto que dá nome ao livro, o escritor Luís Sepúlveda mostra um pouco desta maravilha do Chile, país que o viu nascer e que tanto inspirou a sua vasta obra literária. Desta língua de terra encravada entre a cordilheira dos Andes e o Pacífico brotaram nomes como Pablo Neruda e Isabel Allende, talentos ímpares cuja mestria atravessou fronteiras. Haverá alguma relação entre a geografia agreste do Chile, a solidão dos seus desertos e a capacidade dos seus maiores artistas se erguerem acima destas barreiras naturais e elevarem a capacidade de sonhar a níveis nunca imaginados?

Os Föllakzoid parecem confirmar esta tese. A verdade é que nunca saberemos se são as 300 noites por ano de céu limpo que é possível admirar na sua terra natal, a vastidão esmagadora do deserto de Atacama ou terem nascido no epicentro sul-americano do rock psicadélico que fizerem deles aquilo que ontem vimos no GNRation.  Para a afortunada legião que encheu a BlackBox, a viagem foi certamente inesquecível.

Há algo de profundamente hipnótico neste virtuoso trio que não se esgota na atmosfera transe. O ritmo firme e certeiro, quase mecânico, do baixo e bateria, a actuar como um só, a guitarra cósmica, qual tapete voador a levar-nos para os destinos mais longínquos, a voz que se dilui e entrelaça nas inúmeras camadas sonoras que se vão criando em palco… A fórmula é simples, mas brutalmente eficaz.  Juan, Domingo e Diego criaram algo único e mágico, algo tão deslumbrante e inspirador como as inesperadas rosas vermelhas do deserto de Atacama.


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