Daniel Pereira Cristo: “Temos que levar a cultura cada vez mais a sério”

O Daniel Pereira Cristo é múltiplo. É um homem que aprendeu a povoar-se perto dos melhores. É feliz. Pessoas felizes e de bem com a vida brilham. Pessoas que amam o que fazem são imensamente felizes. São pessoas como o Daniel que devolvem na mesma moeda o que a vida lhe tem dado. Sorrisos. Gargalhadas. Música. Paixão. Não pede troco e diz obrigado. Pessoas que fazem o que amam são capazes de mudar o mundo. O seu mundo e o mundo daqueles que caminham ao seu lado. O Daniel move o seu mundo em busca de um sonho em que ele acredita. Tanto. Muito. Pessoas como ele precisam de se apresentar ao mundo. De frente.

A música tão especial que preenche a alma e as mãos do Daniel Pereira Cristo, o bracarense orgulhoso da sua terra e das suas gentes agiganta-se a cada dia que passa. Todos os novos dias se impõe e insiste. Persiste. Tem uma fé redobrada que o faz ser tão acarinhado por tantos que se orgulham desta maneira de estar na vida. Foi este homem que um dia acreditou e deu a mão à tradição e que, até hoje, vai com ela desbravando o caminho. As pessoas que amam o que fazem são assim. Felizes…

É a música que faz o Daniel ou é o Daniel que faz a música?

Um pouco das duas julgo eu. Também somos a música que escutamos, certamente que é uma das formas de desenvolvermos a nossa mente, o nosso espírito crítico e até a nossa personalidade. Do outro lado, eu faço também música, que é verdadeiramente a minha forma de expressão preferida no mundo, a minha catarse, o meu desabafo e celebração…

Daniel CristoViver a tradição , lutar por um estilo musical tão especial é um desafio a longo prazo ou está finalmente a ganhar espaço no nosso país?

Sem ilusões, está tudo ainda por fazer! É fantástico o lado lúdico, democrático e agregador da nossa música de raiz, nos grupos etnográficos, nos grupos de música tradicional, nos grupos de cavaquinhos, etc, que juntam entusiastas em torno da tradição. Mas o que temos todos que perceber, é que é preciso fazer escola e começar a criar estruturas que apresentem essa música e instrumentos de identidade de forma precoce (como foi o meu caso), aos mais novos, de modo a que possamos no futuro, ter grandes virtuosos e musica de excelência, que para além de ser uma mais valia em termos económicos e turísticos, nos representa enquanto povo. Só com carolice, não vamos lá. Temos que profissionalizar, gerar mercado (nacional e internacional), para que esta componente tão importante da nossa cultura possa elevar-se e ser realmente uma mais valia.

Onde se destaca o Daniel no cancioneiro Português?

Julgo que estamos a fazer algo de novo, que se poderá inserir perfeitamente no mercado internacional da World Music. É fácil imaginar, porque sempre que toquei fora de portas, senti que as pessoas viam a nossa música, e em particular o cavaquinho, como algo com uma grande dose de exotismo, porque é diferente! Também temos arranjos suficientemente arrojados, e a nossa música e trabalho têm sido muito bem recebidos e respeitados. Para além destes aspectos, nas músicas tradicionais rearranja-das que tocamos, está lá tudo – o ritmo e a melodia e a dança que pode acontecer na mesma…
É um grupo com gente de várias sensibilidades. Em que contribuem essas várias facetas para o sucesso ?

Um dos grandes responsáveis por todo este trabalho é o meu produtor Hélder Costa (Xícara e Muita Terra), que que puxou pelos limites de cada músico, que nos ajudou a superarmos-nos consecutivamente e que nos impeliu a procurar novas sonoridades, arranjos, harmonias e linhas melódicas. Com os dois mais jovens músicos que tocam comigo (André Ramos – braguesa e Diogo Riço – bandola e guitarra) sempre houve uma comunicação a tocar incrível e inspiradora. Com a entrada do André NO (percussões) e do David Estêvão (contra-baixo) recebemos a influência do Jazz e da música mais progressiva deles. Finalmente a Catarina Valadas na flauta transversal e voz, veio emprestar uma frescura complementar. No Theatro Circo ainda estarão também os amigos João Conceição nas percussões e Ana Conceição na voz. Acima de tudo, a grande riqueza de toda esta partilha, é que para além de grandes músicos, são grandes seres humanos com quem tenho o verdadeiro privilégio de tocar e trabalhar!

Daniel CristoO Theatro Circo é a sala de sonho para qualquer artista. Como Bracarense o que sente o Daniel ao pisar este palco ?

Sem dúvida uma emoção muito grande, embora já lá tenha tido o prazer de tocar por diversas vezes com o Origem Tradicional, com a Azeituna e já em nome próprio, em trio, no centenário do teatro. Esta é sem dúvida a mais especial de todas, ainda para mais sendo também a ante-estreia de lançamento do meu primeiro álbum a solo “Cavaquinho Cantado”, editado pela AC Museu Cavaquinho. Mais emocionado fico ainda, e verdadeiramente em pulgas, quando vejo um teatro esgotado, com tanta gente que veio de tantos lados, muitos deles de bem longe, cheios de curiosidade e expectativas com a minha música e trabalho. Em suma é uma verdadeira honra, que espero que seja apenas um belo início de uma grande caminhada que ainda está por trilhar!

Sente que a Cultura em Braga tem abraçado cada vez mais artistas da sua terra ?

Sinto que se está a dar os primeiros passos… sinto que se tem que levar a cultura cada vez mais a sério, porque é isso que verdadeiramente nos pode diferenciar, atraindo cada vez mais gente à nossa cidade e região – pela atitude e cultura das próprias pessoas, pelo desenvolvimento do seu espírito crítico e criativo e pela valorização do nosso passado, apontando sempre a um futuro novo que está aí e que temos que agarrar. Para tudo isso é preciso haver apoios e estratégia… O meu grande sonho, que gostaria um dia de liderar e que já foi inclusivamente apresentado à Câmara Municipal de Braga e ao pelouro da cultura – espero que como possível parceiro de peso institucional, é criar um Espaço/Escola, que se dedique em exclusivo a esta área tão importante, que possa receber gente de todo mundo interessada nos instrumentos e música do Noroeste Português, que possa de forma generalizada chegar a todas as escolas e aos mais novos e que possa receber aqueles que querem especializar-se nesta área dos instrumentos e música de tradição oral, com residências artísticas e um plano estratégico tendo em conta a terra e tudo aquilo de que somos feitos. O sonho comanda a vida e, estou certo, de que este traria frutos muito interessantes a médio/longo prazo – com a criação de verdadeiros cidadãos intervenientes (artistas, público, entusiastas, artesãos, animadores, etc) – no fundo um povo mais consciente e feliz, que sabe quem é e que aprende desde cedo a dar valor ao que verdadeiramente interessa.

Daniel CristoEste é o primeiro trabalho a solo. Como foi feito todo o percurso ?

Nasci no meio da música, comecei a tocar cavaquinho com o meu pai aos 8 anos e tive acesso a explorar um montão de instrumentos que estavam ali à mão (a braguesa, a viola, o bandolim, as percussões as gaitas de fole…), muitas horas de estudo e ensaio, com muita convicção, prazer, paixão e sentido de militância, com os projectos trad e folk – Origem Tradicional, Arrefole e Dança dos Homens, passando pelos projectos de pop e rock – Bia Luli, Suspeitos do Costume e Neurónios aBariados, até à Azeituna e à música angolana com o Luís Muxima… no teatro e nas palavras – Teatro Nascente do Este, Teatro Universitário do Minho e Sindicato de Poesia… sempre fui muito dado ao movimento associativo, à convivência com outras pessoas… e todas estas fantásticas experiências, formaram-me como músico, pessoa, cidadão e artista.

Braga está finalmente na rota do sucesso. Sentes-te como o embaixador neste registo musical ? 

Espero poder ter essa honra – é bastante óbvio que tenho muito orgulho nas minhas raízes e na minha cidade. Talvez por gostar tanto de viajar e ser um apaixonado por tantas culturas diferentes e fascinantes por todo o mundo. Esta é a riqueza da humanidade, são as suas diferenças, as suas diferentes culturas… se a estratégia for bem planificada, poderemos um dia fazer de Braga uma referência na música étnica, eu acredito que sim e acredito sinceramente e convictamente que posso ter um papel importante nesse aspecto da vida e projecção de Braga!

O que sobra do Daniel quando pousa o cavaquinho?

Sobra o meu tudo… a minha família que é o meu mundo! A minha mulher, os meus dois filhotes, os meus pais, a minha mana – que são o meu porto seguro, tão importantes, que me incentivam e ajudam, nesta caminhada que temos que fazer que é a nossa vida… Aproveitá-la com eles, viajar passear, ver concertos… e se pudermos tornar a vida das outras pessoas também um pouco melhor, então a nossa vida terá tido um significado – eu espero poder fazê-lo sempre com a minha música. Haja saúde e trabalho! Trabalho sério para fazermos a diferença e fazermos as coisas bem feitas! E apetece-me dizer que viva a música, que viva o que verdadeiramente interessa, que viva a gente boa que vamos conhecendo e que viva a partilha de vida e de cultura, sempre!

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