Catarina Fernandes: “Neste momento é fácil morrer-se à fome pela arte.”

A cronologia de Cuba é-lhe fácil. A bracarense Catarina Fernandes, eterna apaixonada por Cuba pratica o apego pela escrita. Transporta-nos entre as suas  linhas.  Transmite no seu “Terra”, a ternura pela terra que lhe é tanto. Um livro que é muito de uma mulher. Um livro que pôde até demorar, mas que um dia teve ser agarrado com força pelas mãos de um alguém que sabe que era esse o seu destino. Escrever.  Pôde até demorar, mas um dia quis andar no trilho certo da estrada da vida. Dos sonhos. Das vontades. Foi possível treinar este desejo, esta concentração plena que a afastou deste mundo louco e descontrolado e que a tentou empurrar tantas vezes para fora do caminho certo. Invejoso este mundo que não sabe o que é amar a escrita. Insensível teve que ser travado. Parar. Fazer um silêncio interior. Deixou-se embalar num mar que não é de ninguém, e teceu esta história que hoje nos prende a uma vontade infinita de querer conhecer ainda mais uma mulher que todos os dias olha para trás, confirmando que a escrita, e tudo o que a mesma acrescenta à sua vida é incrível…

Olá Catarina. “Terra” é o teu primeiro livro. De que trata esta obra?

Olá. “Terra” é um livro que narra a história duma bailarina que saiu de Cuba muito cedo e regressou 20 anos depois. No início da obra não é possível saber imediatamente o que motiva esta saída, mas à medida que a narrativa avança é possível ao leitor ir descobrindo algumas questões relacionadas com os motivos que impulsionaram a saída de Alice, a personagem principal. Esta descoberta acontece também com a própria personagem, que só após o regresso vai ser confrontada com diversas revelações, situação que acaba por culminar num final inesperado.

Porquê Cuba?

É uma terra de muitas cores, de ritmos quentes, de costumes enraizados e com uma história política muito marcante. Esses foram alguns dos factores que condicionaram a minha escolha. A cor e musicalidade de Cuba estão bem presentes nas descrições ao longo do livro.

Quanto da Alice nasceu da Catarina?

Parte da Alice “saiu” da Catarina ou, como o meu editor costuma dizer “todas as obras são autobiográficas”. Não que o seja por completo, pois não é, mas sim, há alguns traços comuns entre mim e a personagem.

A acção de “Terra” decorre antes ou depois das recentes alterações sócio-políticas que o país viveu?

Antes. O que é notório actualmente em Cuba é a necessidade que muitos ainda sentem de sair do país, conhecer o mundo e ver outras realidades. Qualquer regime político que restrinja esta liberdade, por mais fabuloso que seja o país, acaba sempre por despoletar esta vontade de saltar a fronteira e descobrir o que há além dela.


Transpondo essa necessidade de querer e ser mais ao nosso país, achas que os artistas portugueses também sentem que é fora do país que podem atingir esses objectivos?

Sem dúvida. Seja especificamente aqui em Braga ou em Portugal de um modo geral, não existem os apoios necessários para os nossos artistas e há muitas dificuldades em singrar internamente. Viver das artes em Portugal é tarefa muito difícil, daí que muitos tentem a sua sorte lá fora. Neste momento é fácil morrer-se à fome pela arte.

O que foi preciso mudar no teu íntimo para que esta obra visse a luz do dia?

Essa é uma pergunta do foro psicológico… Tenho uma amiga que leu o meu livro e disse “ ri, chorei e o mais engraçado foi ‘ver-te’ nas palavras que lá estão, sobretudo a tua determinação”. Este foi dos melhores elogios que me podiam ter feito. Isto acaba por confirmar que coloquei de facto muito de mim neste livro. Mas houve também quem me dissesse que este é um livro feminista porque abordo a força das mulheres e a necessidade de fazer as pazes com passado como condição para enfrentar o futuro de modo mais sorridente.

Fizeste as pazes com teu? O livro ajudou-te de algum modo a descobrires-te?

Sim, escrever um livro é uma purga. Acabamos por dizer pela escrita muita coisa que doutro modo nunca diríamos. Há quem faça esta “limpeza” doutras formas, eu faço-o através da escrita.


“ há quem diga que o livro é feminista porque abordo a força das mulheres e a necessidade de fazer as pazes com passado como condição para enfrentar o futuro de modo mais sorridente”


O processo de escrita implicou certamente algumas mudanças na tua vida pessoal.  O que mudou na tua rotina?

Eu precisava muito duma cúpula para me fechar e conseguir escrever…demorei seis anos a escrever este livro. E não é uma obra volumosa como por exemplo as de José Rodrigues dos Santos. Comecei a escrevê-lo quando tive a minha primeira filha que tem hoje sete anos. Demorei todo este tempo precisamente porque não podia deixar de dar o apoio necessário à família. Mesmo não sabendo se iria conseguir terminar e publicá-lo, sempre senti que era algo muito importante para mim.

Tens duas meninas. Há um legado de feminismo que tentas passar para elas?

Sim, há. O pai tenta não deixar mas eu vou conseguindo (risos). Acho que é importante que elas saibam pensar por si próprias. Eu já disse às minhas filhas que por exemplo que não lhes vou ensinar a cozinhar (que é algo que gosto muito). Não o faço porque sendo os homens tendencionalmente comodistas depressa se cria o hábito de sermos nós a cozinhar para eles.

Assim sendo aproveito para perguntar ao marido se é muito difícil viver com 3 feministas…

António Pedro Peixoto – é tão difícil que eu quero ter mais mulheres. Filhas, aliás! (risos)

Alice é também o nome da tua mãe. Inspiraste-te nela?

Em alguns traços a Alice é a minha mãe. Sobretudo o lado aventureiro e a força que a move para fazer aquilo que ela acha que deve ser feito.

Quem é a Catarina mulher e quem é a Catarina escritora?

Há muitas diferenças. A Catarina mulher (falando como os jogadores de futebol na terceira pessoa) é alguém que tenta sobreviver às rotinas, ao desafio de ter duas filhas, de trabalhar fora de Braga, de ter um marido mediático, de ter que lidar com as tarefas diárias… A Catarina escritora é aquela que acorda a meio da noite a pensar nas obrigações e preocupações da Catarina mulher e começa a imaginar novos cenários e é daí é que surgem as histórias.

O marido tem aliviado essa carga para teres mais tempo para a escrita?

Sim, ele tem dado apoio sobretudo no Verão, altura em que consigo escrever mais. Leva as miúdas para a praia enquanto eu fico a escrever.

Que feedback tens tido da aceitação do livro?

Tem sido boa, pelas informações que me tem chegado. Este é, contudo, um mercado feroz e há cada vez mais pessoas a escrever, o que é, na minha opinião, positivo. Há cada vez mais abertura para novos autores emergirem e isso é ótimo pois passa a ser possível ter acesso a mais escritores para além dos nomes mais sonantes da literatura nacional.

Há lacunas em termos de divulgação e promoção de novos autores?

Há sobretudo em termos de comunicação social. A cobertura mediática limita-se quase exclusivamente aos autores de renome, o que prolonga a hegemonia dos mesmos e não dá grande abertura para que seja possível conhecer novos autores. O centralismo de Lisboa também não ajuda.

Como professora tens alguma preocupação em incutir o gosto pela escrita aos teus alunos?

Sim, claro. A minha primeira batalha é pela leitura. Antes mesmo de saberem escrever um texto eles tem que ter gosto pela leitura, isso é fundamental. O plano nacional de leitura deveria na minha opinião ser utilizado também para introduzir novos leitores, nem que fosse apenas uma obra por ano lectivo. Essa era uma forma de os habituar quando vão a uma livraria o olharem para mais do que o poder instituído.

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1 Comment

  • Responder Março 29, 2017

    Maria Alice Cerdeira da Silva

    Estive presente na entrevista que adorei e a transcrição está fiel à entrevista dada. penso que aguça a curiosidade por ler o livro, quem ainda não o fez e lê esta entrevista, ficando também na expectativa de um novo livro de Catarina Fernandes.
    Parabéns também à jornalista Sofia Araújo, pela preocupação de dar a conhecer os novos artistas Bracarenses.

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