Ana Gomes :” “Balanço” é a minha peça de amor mais perfeita”

A música é a cura para os dias mais curtos e escuros. A música leva-nos ternamente até ao Inverno. Agasalha-nos. Dá-nos colo nos dias em que a chuva bate na janela .É uma amiga. Confidente. Ensina-nos caminhos que achava-mos não existir. Trava-nos em ruelas que teimamos caminhar. A música é  o ponto de partida para livros, histórias de amor e desamor, canções eternas que nos prendem em instantes imortais.

Ana Gomes apresenta “Balanço”, um trabalho de introspecção, de viagem pelo seu eu mais profundo. O “Balanço” tem um equilíbrio quase maternal. Firme e cheio de ternura. É grandioso. Ouve-se bem…  Ana Gomes, segue agora sozinha num trabalho a solo. É feliz ao olhar para trás, imensamente grata pela história que escolheu. Nesta fase singular, a cantora vai-nos conquistando, um a um. As letras deliciosamente interpretadas, lembram vidas, histórias e vontades. Por esta e qualquer outra ordem. Músicas que nos invadem. A Ana e o seu “Balanço” já fazem parte do nosso mais restrito mundo que escolhemos para ouvir. Este jazz que ela nos traz na névoa outonal  deveria ser obrigatória para atravessarmos estas noites cada vez mais frias e estes dias cada vez mais pequenos…

ana-gomes-04Olá Ana. A última vez que falamos estavas prestes a actuar no Theatro Circo e a apresentar o teu  “Fado in bossa”. Que voltas deu o teu mundo entretanto?

Olá. Bem, a apresentação do Fado in Bossa no Theatro Circo em Braga foi em 2014, e lembro-me que estava super feliz pois essa data coincidiu com o lançamento do disco físico. Foi nesse dia que recebi o Fado in Bossa na mão e olhei para esse CD como algo acabado de nascer. Sabes, eu costumo dizer que o palco é o meu vício, e esse dia foi muito importante pois, enquanto cantava dizia para mim mesma que nada mais poderia fazer ou ser na vida que não aquilo. Entretanto a vida trouxe-me tristezas, com o falecimento do meu querido maestro e amigo Uriel Varallo que criou e produziu comigo o Fado in Bossa mas, felizmente também muitas portas se abriram e novos projetos surgiram e fui-me aprofundando como pessoa e sem dúvida como cantora.

Existe nostalgia e saudosismo da Ana do fado e da bossa nova?

Essa Ana nunca irá desaparecer. Sempre gostei de fado canção e foi maravilhosa a experiência de trabalhar com um misto de fusão com os ritmos quentes da bossa nova. O que acontece naturalmente é um processo de maturação, evolutivo, compreensivo de mim mesma, que se reflete sempre na música que fazemos. Mas a nostalgia trago-a na voz e na alma, em muito daquilo que faço.

ana-gomes-03Arrumaste muita coisa na tua vida nesta paragem entre estes trabalhos tão diferentes?

Curiosamente tudo se foi arrumando. Nunca senti a necessidade de parar com uma coisa e começar a fazer outra (géneros musicais), até porque tenho trabalhado sempre numa base de música de fusão, esse conceito permanece em mim. Acabei por me ir percebendo melhor, aquilo que queria para mim, a minha vida e imagem na música perante o público. Escutei várias plateias e opiniões de amigos do coração e especialistas na matéria. Estudei e procurei-me. No fundo foi e é sempre como navegar num barco em que as possibilidades de aportar são infinitas, e este é o meu segundo destino. Agora um destino pela primeira vez com o meu rosto, o meu nome, e a minha essência mais interior de uma onda smooth jazz que tanto nos parece citadina como introspetiva e romântica.

Foi uma mudança pensada ou foi algo que apareceu na tua vida por acaso e te prendeu de uma maneira especial?

Surgiu tudo muito por acaso contudo confesso que estava a aguardar pelo momento certo para aparecer a solo. Assumir-me como cantora de corpo e alma é aquilo que estou a fazer com este disco, pela primeira vez e de forma muito transparente, e isso nem sempre foi simples para mim. Hoje percebo que conheci a pessoa certa no momento certo, no caso o compositor dos temas o Tozé Brito que me ajudou imenso neste processo de produção. A partir daí e de uma forma super natural, tudo foi fluindo. Uma admiração extrema da minha parte, depois uma amizade, cumplicidade, conhecimento dos seus temas, ideias e mais ideias sobre como estas músicas ficariam ideais em mim, etc.


“ A nostalgia trago-a na voz e na alma, é muito daquilo que faço.”



Com este novo trabalho, “Balanço” sentes que parte das tuas inseguranças dentro do mundo musical estão resolvidas? Sentes-te muito mais segura?

Certamente, principalmente as inseguranças de palco, questões técnicas, etc. Quando nos rodeamos dos melhores, tudo corre bem melhor. E somos uma equipa, a Ana Gomes é o rosto e o nome, mas tenho comigo uma equipa incrível de músicos e pessoal técnico que me deixam super segura e confortável para poder desfrutar e transmitir as melhores sensações ao público. Contudo o respeito e nervosismo miudinho ao entrar em palco, a adrenalina, a paixão, vem-se transformando e muitas vezes até aumentando mas alimentam-me. Conforme vou tendo mais segurança fico mais confiante e menos racional em palco, o que é excelente mas só pode acontecer depois de muito e árduo trabalho a preparar os concertos.


A Ana amadureceu, e as pessoas, o país, a música em si, achas que também sofreram esse amadurecimento?

Sim, sem dúvida. Acho que a música portuguesa, particularmente, está finalmente a viver, ou a iniciar, um dos seus momentos altos. Lembro-me que quando era muito pequena ouvia-se imensa música portuguesa em discos de vinil e na rádio. Depois, com a loucura da internet e a globalização musical a nova geração de portugueses sofreu com um banho de “americanização” exacerbada da música e portanto tudo o que fosse música portuguesa, cantada em português, era de segunda categoria. Mas neste momento finalmente e graças a grandes forças como a Sociedade Portuguesa de Autores, uma parte dos midia nacionais etc., o panorama já está em mudança e os artistas portugueses a cantar na nossa língua têm finalmente um lugar de destaque e excelência perante o público em geral, seja mais jovem ou mais adulto.

 

ana-gomes-01Portugal não pode ser só fado. No fundo este trabalho em conjunto com o Tozé Brito veio para acabar com os muros que não fazem sentido, e provar que em Portugal também se pode fazer jazz, e do bom?

Não, Portugal não é só fado, sem dúvida. Este trabalho é a prova de que duas gerações de músicos podem trabalhar lindamente e o resultado final é atual, comercial, tradicional, único e muito português. Em Portugal há grandes nomes a fazerem jazz, mas infelizmente isto nem sempre chega ao público em geral. Por exemplo o André Sarbib que produziu o “Balanço” é um desses músicos incríveis que faz jazz do melhor que se faz na Europa. Mas eu não gosto de me rotular porque eu continuo a sentir-me como sempre fui, uma cantora de música ligeira, neste caso com um trabalho de smooth jazz que é com o que mais me identifico. Portugal tem grandes músicos, grandes cantores e grandes produções. Por isso acho que estamos no caminho para, cada dia mais, acreditarmos e levarmos os nossos talentos além-fronteiras.

Apesar de toda a evolução dos últimos tempos na indústria musical no nosso país, ainda sentes um grande abismo entre norte e sul? Estar na capital faz mesmo a diferença?

Sim, estar na capital faz muita, muita diferença. Parei completamente de lutar contra a corrente. E eu sou super suspeita para falar sobre isso porque eu adoro Lisboa, acho que é uma das capitais mais bonitas da Europa e tem uma energia e luz única no mundo. Efetivamente para quem trabalha na música tudo está concentrado em Lisboa. Temos de perceber que o nosso país é muito pequeno, em praticamente 3 horas vamos a Lisboa e por isso, e considerando também a nossa pequena densidade populacional, acaba por se aglomerar sempre lá o trabalho. Cabe aos artistas que, como eu são do norte, diminuir essa distância física e passar o máximo de tempo possível por lá, pois é mesmo muito necessário. O ideal é tornar as viagens menos pesadas, relativizar a distância pensando que se vivesse no Brasil teria de fazer esta distância quase diária só para ir trabalhar.

ana-gomes-02Como é que alguém que demora meses a produzir algo com rigor e profissionalismo, encara a popularidade dos temas mais mainstream, que inundam os tops nacionais de vendas?

Sabes, eu acho que temos de encarar o nosso trabalho na música tal como a nossa passagem pela vida ou seja, se queres fazer a diferença tens de te empenhar e tocar alguém profundamente. Não tenho nada contra qualquer género ou expressão musical. É óbvio que a popularidade atribuída a determinados géneros musicais é super elevada, o que se torna desigual para os restantes géneros menos em voga. Eu também sou daquelas pessoas que escuta rádio diariamente e que por vezes ando a “cantarolar” os temas da moda e alguns deles gosto mesmo, outros nem tanto. Mas um público fiel não se cria de um dia para o outro só porque passa muito na rádio por exemplo. O público conquista-se calmamente e com exatidão na qualidade, transparência, e transmissão de emoção pela nossa música. Este é o público que vai sempre acompanhar o artista porque a relação não é unilateral mas há uma troca de emoções e partilha de sensações musicais e ambiência muito particular nos concertos.

Que sentimento sobressaiu quando surgiu o convite para subires ao palco e atuares no EDP Cool Jazz, na noite de “Marisa Monte convida Carminho”?

Felicidade, explosão de felicidade dentro de mim. A sensação de ter alcançado uma meta, apesar de eu não a ter anteriormente de forma consciente definido como tal, invadiu-me completamente. Eu sigo o trabalho da Marisa Monte há vários anos e ela esteve a escutar o meu “Balanço” antes do convite para a abertura dessa noite do EDP Cool Jazz. Da nova geração da MPB é uma das cantoras que mais aprecio e poder partilhar o mesmo palco e os bastidores, apresentando em primeira mão o meu “Balanço” para um público de cerca de 6000 pessoas, foi divinal.

Trabalhar com o Tozé Brito tem sido de uma importância extrema neste teu percurso. Que conselhos guardas deste que é um nome incontornável da música portuguesa?

O Tozé Brito é uma pessoal maravilhosa. Todos os dias agradeço a sorte que tenho por ter a sua amizade e por me permitir beber do seu conhecimento, que é colossal. Para além de ser o autor dos dez temas que integram o “Balanço” cantar com ele em dueto, em estúdio e agora também ao vivo, tem sido fenomenal. Ele já me deu conselhos incríveis, já me contou o seu maravilhoso percurso e muitas aprendizagens que teve mas aquele que eu mais guardo, por mo ter dado antes de entrar em palco no EDP Cool Jazz foi precisamente, “diverte-te muito no palco porque a música é para isso mesmo”. Se formos conduzidos pela emoção isso passa para o público e estamos em paz.

Este “Balanço”, trouxe-te o equilíbrio que precisavas?

Este “Balanço” é mais um pedaço do meu equilíbrio, é um balanço do meu íntimo, e é um balanço dos temas de amor que elegi com o Tozé Brito para este CD. É um balanço muito Ana Gomes, é um swing de mim mesma e quem me conhece perceberá logo isso. Costumo dizer que este álbum é essencialmente uma peça de amor, músicas de amor para gente apaixonada, triste, feliz, mas introspetiva e relacionada com a vida e o mundo. É a minha peça de amor mais perfeita e real até hoje da qual espero mesmo que gostem.

 

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