Adolfo Luxúria Canibal: “25 anos depois, voltamos ao local do crime”

Da longa e próspera vida do  Theatro Circo há um momento que ficará para sempre gravado como uma das noites mais marcantes e intensas da sala principal da casa mãe da cultura bracarense. Corria o ano de 1993 e os Mão Morta, catapultados pelo álbum Mutantes S21 e pela ampla difusão radiofónica e televisiva de temas como “Budapeste” chegam ao palco do Theatro Circo com uma popularidade quase histérica, tal o historial de incidentes ocorridos em anteriores espectáculos, chegando inclusive a ser necessária intervenção policial para acalmar os ânimos mais exaltados em alguns deles. De actuações em camisa de força, promotores que tiveram pistolas encostadas às cabeça para pagar o cachê, um auto-esfaqueamento de Luxúria em palco que lhe valeu 20 pontos, invasões de palco por fãs semi-nuas e muitas outras peripécias, as actuações da banda bracarense  decorriam frequentemente no limite da criatividade artística, e algumas vezes, para além dela. O Theatro Circo não foi excepção e no final do espectáculo, mais do que uma banda, parecia ter sido um tornado a passar pela sala, tal o grau de destruição onde só as paredes ficaram de pé. Quem segue a banda desde o início ainda recorda essa mítica noite como “inesquecível”.

25 anos depois a banda regressa ao local do crime para celebrar o lançamento de “Mutantes S21”, recordando todos os temas do famoso álbum mas apresentando também algumas novidades. Para saber um pouco mais desta noite falamos com o protagonista desta longa e épica aventura.

Olá Adolfo. A esta (longa) distância que memórias guardas do lançamento de “Mutantes” ?

Todas! Foi uma época complicada. O nosso percurso no meio underground estava praticamente esgotado e o nosso futuro era uma incógnita. A última editora com quem tínhamos trabalhado estava cheia de problemas, sobretudo ao nível da distribuição, o grafismo tinha saído todo adulterado, rótulos por colar…enfim, o nosso moral estava um pouco em baixo.O disco que estávamos a preparar estava já meio composto em ternos de letras e músicas e corríamos o sério risco de ficar com ele na prateleira por não ter editora nem ninguém interessado nele. Felizmente o nosso manager Vitor Silva gostou do trabalho e disse “o disco é uma belíssima ideia, eu edito isso, vamos avançar e seja o que Deus quiser”. E assim foi. O disco foi um sucesso, assim como a tournée em 93, que acabou por nos levar para um novo patamar, chegando a um público muito mais vasto.

Que grandes semelhanças e diferenças encontras entre essa época e a actualidade?

São dois mundos completamente diferentes. Esse álbum foi o primeiro que editamos em formato cd, que era uma novidade na altura. Os computadores portáteis eram uma miragem e a possibilidade de gravar, editar e difundir a partir de casa como hoje é prática comum é algo que na época pertencia ao domínio da ficção científica!

E na sonoridade dos Mão Morta?

A nossa sonoridade é sempre a mesma e é sempre diferente… Não temos dois discos iguais e nunca apostamos num formato, estivemos sempre à procura de algo, tudo isso sempre fez parte das nossas características. Obviamente que há coisas incontornáveis, como a minha voz, o som, o ambiente dos Mão Morta. Mas claro, em termos estilísticos e estéticos há grandes diferenças e isso é natural.

Este espectáculo tem contudo algumas  novidades em termos cénicos…

Sim, quando nos convidaram para lançar um concerto comemorativos dos 25 anos de “Mutantes” não queríamos, de todo, fazer uma coisa nostálgica, pois é algo que não é da nossa natureza. Lembramo-nos que na altura do lançamento da versão em vinil deste álbum, glorificamos o formato e a sua grande superfície com um livro com bandas desenhadas. Pensamos que neste caso seria oportuno transpor essa ideia para a actualidade com o auxílio das novas tecnologias. Pedimos por isso a quinze ilustradores nacionais que fizessem uma ilustração para cada uma das canções e com a intervenção do João Martinho Moura e dum programa por ele desenvolvido, elas serem manipuladas e projectadas durante cada um desses temas, tornando o espectáculo muito mais audio-visual do que o habitual. Continuamos à descoberta pois, como disse, não faz sentido repetir velhas fórmulas.

Tem um sabor especial actuar na sala do Theatro Circo?

Tem um sabor muito particular primeiro porque é o encerramento da tornée, é na nossa terra, mas sobretudo porque foi há 25 anos que se deu o tal concerto em que o Theatro Circo ficou destruído. Voltar ao local do crime 25 anos depois do encerramento da  tournée que comemora o lançamento do disco que deu origem a esse crime é maravilhoso.

O que se passou de facto nessa noite? 

Parafraseando um artigo do Jornal de Notícias na época….ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Parece que o Theatro Circo levantou e no final do concerto aterrou no meio do caos, do pó e da destruição. Desta vez não será certamente assim, já não temos 15 anos! (risos)

 

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