A vida dos porquês nesta “Máquina do Mundo”

A estadia do ser humano neste hotel, a que chamamos Terra, fica marcada pela acumulação de porquês, pelas dúvidas que insistentemente ficam sem esclarecimentos. O comodismo ou o simples “deixa lá isso”, aliam-se na busca pela vivência sem stress e sem problemas.

A vida. Esta passagem da história que não controlamos. Mas, por vezes, e sem termos noção disso, mudamos o alfinete da bússola que nos indica o norte, e o destino da humanidade está nas nossas mãos.

É na base das decisões mais banais que Alexj Shipenko nos apresenta “A Máquina do Mundo”. Uma peça de teatro que junta o poeta Camões e a tragédia do 11 de Setembro. Parece estranho, não é? A mente que criou esta história, e que em conjunto com a Companhia de Teatro de Braga lhe vai dar vida, explica tudo numa entrevista que nos faz considerar todos os porquês do dia-a-dia.

a maquina do mundo Alexj ShipenkoSobre o que é esta peça?

Essa não é uma pergunta correcta (risos). Só porque eu não gosto da palavra “sobre”. Porque sobre significa algo que nós não somos, algo fora de nós. Mas esta é uma peça sobre o que está dentro de nós, como nós percebemos o mundo. Esta é uma questão muito importante, o que nós pensamos sobre isto. Isto é apenas uma peça sobre um escritor, chamado Camões, e ele está a escrever a história da sua vida e nesta história há muitos mistérios. Ele tenta descrever o que realmente se está a passar, há 23 anos atrás. E há 23 anos atrás foi o 11 de Setembro, porque esta peça acontece no futuro. Este é só o enredo da história, mas também podemos ver muitas referências ao mundo islâmico, ao mundo muçulmano. É sobre o que acreditam, o que é isto ou aquilo? Se for o mesmo Deus ou um Deus diferente? Porque é que temos que lutar contra ou a favor de alguns deuses? Isto é apenas um pensamento sobre quem nós somos, o que acreditamos.

Porque é que escolheu o 11 de Setembro?

O 11 de Setembro é um evento importante, mudou muita coisa no mundo. Lembro-me de quando vi pela primeira vez na minha vida aquelas fotografias, e penso que toda a gente se lembra. No primeiro momento que as vi, não acreditei. E ainda não acredito. Para mim não é acto de terrorismo muçulmano. De todo, porque a pergunta é, obviamente, quem tirou proveito deste evento? Nós vimos uma sociedade americana capitalista tirar proveito disto.

Na sinopse da peça faz referência a um estranho chamado Camões. É uma referência ao nosso Camões?

Sim. É também uma referência ao meu trabalho aqui em Portugal, porque eu trabalho com Camões e já fiz os Lusíadas aqui em Braga. Para mim, Camões é um grande, grande pensador e poeta de Portugal, que expressa muito bem este mundo da lusofonia. E ele é um grande mito que vai atravessa toda a história de Portugal. O mundo de Camões continua a ser o mundo de Portugal. Este tipo poético e muito religioso é também um caminho para perceber a realidade. Eu penso que Camões é um grande poeta, um tipo clássico que formou a cultura portuguesa e a maneira portuguesa de pensar.

Nesta peça, tenta encontrar respostas para os múltiplos porquês que ficaram sem respostas em relação ao 11 de Setembro?

Eu não quero realmente procurar respostas, para mim não há respostas. Nós não as vamos encontrar. Eu tenho a certeza que nunca vamos saber a verdade sobre esta história, porque a verdade é diferente. Estou apenas a pensar sobre quem nós somos, porque é a partir da resposta a esta pergunta que depende a vida e a sociedade. Não tenho a certeza se existe algum tipo de respostas ou perguntas, esta é apenas uma maneira do ser humano pensar. Respostas, perguntas. Há um monte de perguntas nesta vida, e isto é apenas a vida. Nós estamos aqui sentados a conversar, isto é a vida. Que tipo de resposta podemos dar a isto? (risos)

AMAQUINADOMUNDO_PauloNogueiraPara si, a palavra porquê é muito simples ou demasiado complexa?

As pessoas passam o tempo a perguntar porquê. Porquê isto? Porquê aquilo? Por que é que isto aconteceu? E não há respostas para estes porquês. Porque este é o processo de desenvolvimento do mundo da vida em que estamos envolvidos. Por que é que perguntamos porquê? Por que é que não vivemos sem pensar? Eu penso que pensar é a arma mais perigosa do mundo. Algumas pessoas pensam de forma diferente. Alguns pensam que têm que matar pessoas porque não acreditam num Deus. Mas tenho a certeza que a história da religião muçulmana não é assim tão simples para responder aos porquês, porque esta é uma religião antiga, assim como o Cristianismo, uma das religiões básicas deste mundo. Isto também vem de uma grande, grande união da religião israelita, da religião judaica, das religiões de um único Deus.

Já esteve no Theatro Circo antes desta peça? Quais as impressões?

Sim. O Theatro Circo é um bonito teatro…um teatro muito bonito realmente. Eu adoro o Theatro Circo. É um edifício espectacular e obviamente o centro de Braga. Eu gosto do Theatro Circo porque é um circo. Porque a vida em Braga é quase como um circo, é uma cidade reservada que vive a partir das suas próprias regras. É uma cidade completamente diferente do Porto ou Lisboa. Mas é uma cidade muito, muito interessante.

Quais são as suas expectativas para a estreia aqui em Braga?

Eu não tenho qualquer tipo de expectativas. Apenas faço o meu trabalho e quero que a actuação seja boa. Quero é que o público goste (risos).

“A Máquina do Mundo” tem estreia marcada para o dia 27 de Julho a partir das 21h30. O espectáculo repete-se até ao dia 31 de Julho, à mesma hora e sempre na sala principal daquele que é o coração da cultura de Braga, o centenário Theatro Circo.

Preço: 10€ / 5€ (Quadrilátero)


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