A Maria que vive…no risco!

Ilustrar é viver…no risco! Para Maria Tavares, os desenhos são uma fuga saudável, uma vontade doce e genuína de mostrar um pouco mais de si. Para Maria , ilustrar é estar em casa, com os seus, aqueles que são para todo o sempre razão da sua inspiração…

Quem conhece a Maria mãe, arquitecta , amiga e irrequieta sabe que não tem medo de nada, não se preocupa com as criticas e até as usa para um crescimento interior. Hoje, apresenta-nos o seu mais doce projecto “Um desenho por dia…” . Não seria delicioso ter uma Maria em todas as cidades? Se calhar seria… Mas esta, esta é de Braga !

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Um desenho por dia… e restabelece a energia?!… ou, nem sabe o bem que lhe fazia!

Ilustrar é um processo que tem o seu ponto de partida na alma?

Eu não me considero uma ilustradora. Sou, talvez, uma desenhadora de circunstâncias, de tudo o que me motiva, seja pela ocasião, ou por um simples gesto que desencadeia algo que merece ser registado.

Gosto de observar o que me rodeia, mas à minha maneira, enfatizando “isto” ou “aquilo”, reinterpretando. Porque desenhar é isso, é reinterpretar. É um processo de comunicação, seja para outros entenderem, motivando-os, seja para mim apenas, motivando-me também.

E sim, parte da alma, não tenho dúvida, parte do nosso mundo interior. É um processo racional na medida em que sabemos o que estamos a fazer, mas é impulsivo. Os 5 sentidos cruzam-se e baralham-se, quase como se todos quisessem ser prioritários naquele desenho…

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Esse prazer, essa vontade, surgiu como?

Recordo como se fosse hoje, o dia em que conheci dois professores únicos. Frequentava o Liceu Pedro Nunes em Lisboa e estava no 9º ano de Artes. Diria mesmo que estava no lugar certo, na hora certa… e também com os colegas certos!

O José Paulo Ferro e a Isabel Garcia, ambos artistas plásticos com variadíssima obra reconhecida, dedicaram-se a nós de uma forma muito peculiar. Parecia que tinham escondido dentro de um baú os manuais escolares, ignorando-os, e o que interessava mesmo era experimentar, viver a arte como algo impossível de dissociar da rotina do dia. Ensinaram-nos a observar, a não ter medo da folha branca e a ultrapassar de imediato o A4, a perceber que se gostamos de facto, temos de insistir e nunca desistir. Fomos às inaugurações de todas as suas exposições, visitamos outras, passeamos por todos os cantos da cidade e sempre, sempre com os olhos abertos à procura do momento certo para registar. É dai que vem a mania do caderno de viagem, aquele que, transportável, nos acompanha em todos os momentos, registando tudo o que nos motiva. As narrativas cruzavam-se sempre, fossem escritas ou desenhadas… e tudo servia para esse registo.

Motivaram-nos a não ter medo de sair da nossa zona de conforto que, com 14 anos, nem sei bem qual seria! Mas para dizer que o importante era não ter receio que saísse errado, pois, na verdade, o “bonito” é sempre relativo. Éramos assim uma espécie de tribo que se sentava nas mesas de esplanada do Príncipe Real e roubava cinza do cinzeiro do vizinho do lado para poder ver nascer uma sombra diferente, misturada com o café que ainda não bebíamos.

Numa rápida sequência temporal, tudo começou a fazer sentido, pois tive a sorte de privar com grandes amigos cujos familiares viviam da arte. E sem qualquer esforço, também nós seguimos esse caminho, por diferentes vias, mas seguimos. Foi um processo natural.

Também tive a sorte de nascer numa família motivada pela música, pelo teatro e pelo cinema. Uma família que nos levava para as primeiras filas do Teatro Nacional D. Maria II, e quase sem altura para observar por cima das cabeças das pessoas da frente, procurava fascinada por um mundo repleto de pormenores que iam muito para além do personagem do Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal! Os cenários, as luzes, …, todo aquele mundo imaginário, transportava-me para uma dimensão que queria conhecer de perto, de tal forma que no ano em que concorri à Faculdade de Arquitectura, também fiz provas para a Escola Superior de Teatro do Conservatório Nacional.

Em 1988, a família proporcionou-me a frequência do Curso de Desenho da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Foi a cereja no topo do bolo. Orientado pelo escultor Quintino Sebastião, consegui recolher as ferramentas essenciais que alicerçaram a minha vida como docente desde 1995, primeiro em escolas de ensino básico e posteriormente no ensino superior.

O professor Quintino pegava-nos na mão apertando-a juntamente com a grafite e ao mesmo tempo que desenhava por nós, mas connosco, dizia: “O desenho vem de dentro , não vem da mão”, na tentativa de ver riscos fluídos e sentidos.

O curso de arquitectura veio ajudar a não desistir, a motivar diariamente, fosse pela via do registo gráfico de comunicação mais pessoal, fosse pelo desenho técnico. Naquela altura, o computador era espécie rara que eu não conhecia, dai que o desenho era sempre manual. Era e é, um desafio constante… e viciante.

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Quando estás a ilustrar o lápis tem vontade própria ou o teu cérebro está sempre no comando?

As circunstâncias do desenho são muito distintas… Há, como já disse, um processo mais racional, pois estamos conscientes que vamos desenhar. Mas também há gestos singulares que se desencadeiam naturalmente e parece que é o lápis, caneta, o que for que sirva de ferramenta, que percorre a folha sem que tenhamos consciência do resultado final. Tenho noção que agora, há um deliberado processo que vai ao encontro de algo. Por exemplo: faço parte de uma Comissão de Liturgia da Arquidiocese de Braga. O meu papel é desenhar para o Suplemente Igreja Viva do Diário do Minho, uma proposta semanal dos arranjos florais (ou não) que acompanham as eucaristias de Domingo. Esse trabalho é feito com base nas leituras, dai que há um ponto de partida já trabalhado por parte da equipa.

Os desenhos, que já são muitos (desde o início do ano litúrgico passado, em Novembro de 2014), vão-se apurando, disciplinando. Diria que, têm de conseguir comunicar convenientemente, pois é com base nesses desenhos que as paróquias se vão apoiar para compor o seu arranjo que será exposto para toda a assembleia (embora haja sempre um descritivo que ajuda a enquadrar).

Mas também há os outros casos, aqueles que são imediatos, que surgem enquanto esperamos pela nossa vez num consultório. Olhamos para quem nos acompanha na sala e em breves instantes fotografamos mentalmente o que se passa à nossa volta… e registamos. O registo não é fidedigno, nunca! É sim, sentido, como dizia o professor Quintino. Muitas vezes nem olhamos para o suporte. O lápis e o cérebro vivem em simbiose pura.

Durante estes anos todos onde escondeste estes desenhos?

 Os desenhos andam por aí!… Sou muito pouco disciplinada com eles, pois tanto podem estar na agenda, como no meu caderno, como no canto de um livro que estou a ler… ou em folhas soltas que guardo ao monte por baixo da minha mesa. Não os conservo em prateleiras por data, nem tema, embora no geral seja muito organizada. Mas são registos de circunstância, fazem sentido naquele momento e depois esqueço.

Parte deles estão nos muitos cadernos transportáveis, outra parte oferecidos!

Por vezes desmantelo o caderno e espalho os desenhos pelas paredes da casa, como por exemplo agora na minha cozinha!!! A minha filha rouba-me desenhos e leva-os para as paredes do seu quarto e faz composições com eles. Eu gosto, pois se faz sentido para ela, é porque algo lhe diz.

Por vezes fotografo-os e publico-os numa página que tenho nas redes sociais. Sem qualquer vaidade… são experiências apenas e sei que há quem goste de ver. É uma forma de me aproximar das pessoas, de mostrar que vale a pena insistir no que se acredita. Nem têm de estar perfeitos! Também nem sei o que é um desenho perfeito, mas se me disse algo, também pode provocar reacção em alguém. No outro dia publiquei um desenho de uma senhora que ouvia música com os seus phones enquanto esperava, tal como eu, sentada numa repartição de finanças. Surgiu um comentário a esse desenho: “Credo!!!!”…. Teve graça! A pessoa reagiu! Porquê?… Não gostou, talvez!

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Acreditas que um desenho por dizer muito de uma pessoa?

Claro que sim!

Podíamos viajar até aos clássicos e rapidamente percebíamos isso. Mas nem é necessário.

Veja-se a Helena Almeida, por exemplo. Que força que têm os trabalhos dela. Eu vejo-a tal qual o seu trabalho.

Eu sou arquitecta de formação. Ensino numa faculdade de arquitectura e vejo com os meus alunos muitos desenhos de arquitectos, por forma a motivá-los para a importância do desenho como processo de comunicação.

Os desenhos do Siza são deliciosos. Transmitem uma rotina, uma dedicação constante à causa, uma entrega absoluta, há um caminho que se pode traçar através do desenho e que é visível na sua arquitectura.

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O que dizem os teus desenhos de ti própria?

Nunca pensei nisso…Talvez que sou uma pessoa irrequieta, insatisfeita. Sem medo de enfrentar o papel e sem medo da crítica. Que gosto de experimentar e que gosto de desafios diferentes. Que gosto de processos simples e rápidos. Que observo. Que por vezes me interesso mais pelo pormenor, do que pelo contexto. Que o excesso não interessa. Que gosto de olhar para as pessoas, de perceber onde andam e o que pensam… e de as registar. Que gosto do movimento que as pessoas proporcionam. Que sou persistente.

Quem é a Maria dos desenhos?

A Maria é uma pessoa comum. Que nasceu, cresceu, formou-se e viveu em Lisboa até aos 34 anos e, como tal, é muito urbana. É uma Maria mãe… e depois professora, arquitecta, cidadã. É uma Maria que vem de uma família de gente batalhadora e que aprendeu muito com isso. É uma Maria muito independente, mas dependente de afectos e de sorrisos. É uma Maria que vibra com as conquistas dos filhos… ao certo como todas as Marias.

É uma Maria que adora música, que adora cantar, que adora ver coisas bonitas. É uma Maria simples, muito transparente e sincera, mas que elege o que quer para a sua vida. É uma Maria com muita Fé e que tem aprendido a dar Graças por ser quem é.

É uma Maria que tem muitas malas, sacolas e afins, mas lá dentro, sempre a mesma lapiseira e a mesma caneta Bic preta que se renova quando a tinta teima em chegar ao fim.

 

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1 Comment

  • Responder Março 14, 2017

    Quintino Sebastião

    Gosto,
    “O desenho vem de dentro, não vem da mão”
    Q.S.

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